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segunda-feira, 14 de outubro de 2019

Coringa - somos todos insanos em potencial (contém spoilers)


     Diversas análises psicológicas de "Coringa" foram feitas. Gostaria de apenas pontuar certos aspectos que, no meu ponto de vista, marcaram o filme, foram pontos-chave para seu entendimento. 
     É interessante como estão surgindo filmes em que os vilões de tempos atrás agora são justificados em sua integridade, acrescentados de uma biografia que contextualiza suas maldades. Nessa leva estão "Malévola", "Esquadrão Suicida" e "Venom". Isso pode estar denunciando uma movimentação incomum na psique objetiva mundial em relação a conteúdos sombrios inconscientes. Filmes como "A Bela e a Fera", bem mais antigos, já apontavam para essa dinâmica em estágio nascente. Uma certa valorização da sombra, que pode ser salutar se for aceita conscientemente, sem que necessariamente se concorde com as atitudes correspondentes. Os conteúdos sombrios precisam ser aceitos, ter a oportunidade de se expressar, de se fazer conhecer pelo ego, e depois serem confrontados com os valores conscientes do indivíduo, que este de certa forma "diga" à sombra que existem sentimentos, valores humanos, que devem ser respeitados. Isso equilibra a psique e mantém sua integridade.
     Arthur Fleck é o Coringa. Em inglês fleck significa os substantivos mancha, nódoa, mas também o verbo pintar, salpicar e manchar. Assim, Coringa é uma espécie de mancha ou nódoa da sociedade. Ainda assim, uma sociedade que seja completa não pode abrir mão da sua loucura, a contraparte da racionalidade, da estabilidade e da estrutura, pois ela fornece a desorganização necessária - o caos - para que o criativo possa surgir e ter seu lugar.
     É interessante como Arthur Fleck confessou à assistente social que "durante toda sua vida não sabia se existia de verdade". Isso é muito comum nas pessoas que costumam negar seus conteúdos psíquicos originais e espontâneos (pensamentos, sentimentos, sensações e fantasias). Essa negação se baseia no que a pessoa percebeu que a família e a sociedade valoriza e despreza. Percepção essa que pode estar em muitos aspectos baseada em fatos reais, mas também, por outro lado, em concepções distorcidas da realidade e de si mesmas. É comum que, iniciada uma psicoterapia, percebam o quanto são reais, que "ganham existência" quando podem compartilhar seus sentimentos genuínos com as pessoas. Algumas sentem como se pudessem "apalpar" seu próprio eu, como se este ganhasse alguma substância que antes não possuía. 
     Mas o que acontece com Coringa é que ele vai surgindo, vai brotando aos poucos da trama, revelando seu estado, semelhante ao que ocorre com Norton no filme "Clube da Luta". Arthur usa uma máscara (persona) rígida, a de palhaço, para sempre mostrar um sorriso. Sua profissão é rir e fazer rir. Apenas a alegria, as risadas, podiam se manifestar, ao modo do filme "Divertida Mente", que personificou Alegria, Tristeza, Medo, Raiva e Nojinho na mente de uma menina. Não sabendo como se expressar autenticamente, como se fazer presente para se sentir existente, acaba recorrendo ao assassinato dos três agressores no metrô. Antes de ser um assassinato, os tiros são atos de revolta, de "explosão" contra ações que não respeitam limites, que ferem os mais fracos e não aceitam as diferenças. A violência neste caso, assim como nos casos de homens agressivos física e verbalmente com as esposas, é expressa devido ao indivíduo não encontrar outra maneira de exteriorizá-las. Antes de executar os agressores externos, sua máscara o agredia internamente, sufocando-o. Quando os mata, um ato equivalente é efetuado contra as forças repressoras internas, que agora foram para o "além" interno, o inconsciente. Arthur muda: deixa conteúdos que antes eram inconscientes entrarem, fazerem parte do seu ego. De gentil, tímido e receptivo, agora passa a ser violento e bem mais sensual. O que facilita essa espécie de conversão é ele parar de tomar os remédios psiquiátricos, que impediam a manifestação dos sintomas e retinham os conteúdos sombrios.
     Então surge a imagem interna correspondente à vizinha com que se encontrou no elevador. Por um bom tempo ela o acompanha e tem uma atitude receptiva para com ele. Isso acontece provavelmente por ele se mostrar mais acolhedor em relação às forças antes inconscientes. Elas ganham realidade. Com isso ele adota cabelos verdes no lugar da peruca e o próprio nariz, mais originais do que os do palhaço.
     Interessante é que Arthur, no programa de TV, faz uma crítica lúcida à realidade de Gotham. Não fossem os atos extremamente violentos poderia se dizer que ele havia se curado quase completamente. Coringa torna-se um líder da multidão, pois representa os elementos mais espontâneos, originais e indigentes de atenção da psique da coletividade.
     Segundo o Dicionário Michaelis online, Coringa (Curinga) pode ter várias interpretações, essencialmente a de indivíduo ou elemento que pode exercer funções variadas ou mudar de valor conforme a situação, seja no papel de ator, jogador, carta de baralho ou caractere (o asterisco, p. ex.). E Coringa, surpreendentemente, se torna um agente dos anseios do povo de Gotham, o que nem mesmo ele esperava. Mundialmente, o filme também faz muito sucesso, o que talvez não ocorresse tempos atrás. Talvez o mundo esteja bem mais receptivo a figuras de vilões, enquanto representantes do inconsciente coletivo. Aceitar que figuras como essa surjam do nosso interior não é perigoso, se se mantiver uma distância crítica em relação ao que elas possam originar em nós. O risco é que as pessoas as reprimam ou se identifiquem com elas, o que foi exemplificado no filme. O maior perigo é o homem não se conhecer, não aceitar a realidade do seu ser, como é. Ele pode até não concordar e se recusar a agir de acordo, mas tem que lidar com as expressões involuntárias do seu ser, para não se haver com manifestações irresponsáveis e impensadas como as do filme. Doenças, conflitos e morte é o mínimo que pode resultar daí. Saibamos viver a partir de dentro lá fora.

Leia mais a respeito: "A origem e a natureza do Eu" - "A origem do Eu", "A solidão e o trabalho com o inconsciente", "O pensamento positivo e a auto-ajuda", "Como integrar o seu dragão", "Gita - uma análise do 'Eu Sou'", "Alice no inconsciente coletivo", "Imaginação ativa ou terapia com o Sr. Inconsciente", "Os três níveis de consciência", "O belo, o feio, Deus e o preconceito", "Gita - uma análise do Eu Sou".

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Resignificando o jogo Baleia Azul


     A título de introdução, remeto o leitor ao texto "A importância do rito de passagem na adolescência". Nele há o entendimento de que a adolescência é um período de vida em que ocorre um processo de transformação da criança em adulto. Por esse motivo, a duração da adolescência é muito móvel, a faixa de idade varia conforme a cultura e depende da época histórica do país também. Esse processo, em suma, envolve a morte psíquica da criança e seu renascimento, semelhante ao simbolismo do batismo religioso, uma vez que este abarca o mesmo motivo. 
     É isso que os ritos de passagem encenam, dramatizam: a morte do ego infantil, com o qual há o fechamento dos tempos de garoto, o seu sepultamento, para que o homem nasça justamente desse "túmulo". E essa morte é simbolizada nas iniciações, envolvendo, por exemplo, a colocação do corpo do jovem em um caixão em local escuro por um período, e o seu velório. Por vezes, os próprios sonhos podem induzir uma morte simbólica: vide o sonho repetido do adolescente, no qual ele era sempre velado pela família, no texto citado acima. Tudo indica que o sonho insistia em que ele fizesse a passagem, o processo de transformação, que não envolvia a morte literal, mas simbólica. Essa é a chave para o entendimento da indução ao suicídio no jogo Baleia Azul. Existem muitas indicações de que os 50 desafios do jogo promovem a morte literal do ego e do indivíduo, por meio da identificação deste com a figura da tal baleia. Por isso ele é macabro e letal. Mas não precisava ser assim...
     Tratemos o jogo um símbolo, uma cena de sonho. No jogo existe a figura do "curador". O dicionário dá algumas definições de curador, mas as que são mais próximas do nosso objetivo são: 1. pessoa com incumbência legal de zelar pelos bens e interesses daqueles que não o possam fazer (função de curadoria); 2. Feiticeiro/rezador que, supostamente, cura as mordidas de serpentes venenosas, ou que as torna respeitadas por estes (AURÉLIO, 2009). Nesta segunda definição poderíamos acrescentar simplesmente aquelas pessoas que, supostamente, curam doenças das pessoas com sua arte espiritual. Lembro-me que uma dessas benzedeiras, Dona Aurora, minha vizinha, certa vez curou várias verrugas que eu tinha na ponta dos meus dedos de ambas as mãos quando era adolescente. Após a "benzição" com galhos de arruda, monitorei cuidadosamente o acontecimento. Ao final do primeiro dia parecia que elas estavam diminuindo de tamanho; qual não foi minha surpresa ao ver meus dedos totalmente limpos no segundo dia! Hipnose? Se for, mesmo hoje, com todos os cursos de especializações que existem, deve ser muito raro achar um que tenha essa competência... De todo modo, tudo indica que esse curador do jogo queira remediar algum inconveniente desses jogadores adolescentes. Não faria ele o papel de iniciador à morte física nesse macabro rito de passagem? No entanto, não poderia ele fazer simplesmente um papel mais psicológico, levando nossos jovens a "morrerem" psiquicamente, enquanto crianças? Esta é a proposta deste texto: resignificar o jogo e chamar a atenção para a grande necessidade de ritos que subjaz no comportamento dos nossos jovens.
     Assim, toda a série de mutilações e cortes no corpo possuem um sentido iniciático. De acordo com Stephenson (2009, p. 57), muitos ritos de passagem, nas culturas antigas, envolviam o derramamento de sangue de alguma maneira. E havia uma dupla razão para isso: os garotos precisavam se acostumar a ver sangue, pois ser homem implicava correr riscos, ser resistente e corajoso, mesmo quando ferido; derramar sangue lembrava o ciclo menstrual da mulher, ligado à conclusão do parto (nascimento). Hoje essas práticas parecem cruéis e arcaicas, mas cumpriam seu objetivo de fazer uma transição relativamente rápida da criança em adulto, e podemos aprender muito do sucesso de sua dinâmica.
     Para Brandão (1990, p. 337), para se penetrar no símbolo da mutilação
é bom relembrar que a ordem da "cidade" é par: o homem se põe de pé, apoiando-se em suas duas pernas, trabalha com seus dois braços, olha a realidade com seus dois olhos. Ao contrário da ordem humana ou diurna, que é par, a ordem oculta, noturna, transcendental é UM, é ímpar. O disforme e o mutilado têm em comum o fato de estarem à margem da sociedade humana ou diurna, uma vez que neles a paridade foi prejudicada. Numero deus impari gaudet, o número ímpar agrada ao deus, diz o provérbio, mas an odd number significa também em inglês um "tipo estranho, um tipo incomum", e a expressão francesa il a commis un impair significa que alguém "cometeu uma inconveniência", "fez asneira", transgredindo, por leve que seja, a ordem humana. O criminoso "comete uma terrível inconveniência", transgredindo gravemente a ordem social; o herói se "singulariza perigosamente". Ambos realçam o sagrado e só se distinguem pela orientação vetorial do herói: sagrado-esquerdo e sagrado-direito. O vidente, como Tirésias, é cego; o gênio da eloquência é gago... a mutilação tem pois dois lados, revestindo-se também da complexio oppositorum, possuindo, assim, valor iniciático e contra-iniciático.
     Dizer ou escrever "Eu sou uma baleia" é afirmar a identidade com esse animal. Estar em comunhão ou se identificar com algo ou alguém pode envolver comer algo relacionado a isso, como ocorre no rito cristão da comunhão. Assim, ser uma baleia indica ser devorado por ela. Jacobi (1991, p. 135) diz que ser comido ou devorado é um motivo arquetípico amplamente propagado em várias lendas, contos e mitos. O exemplo mais conhecido é o de Jonas engolido pela baleia. A baleia é parente do dragão, simboliza com frequência a água, o mar que devora o sol e o devolve de novo à vida. A bruxa, o lobo e o ogro devorador possuem sentido similar. No simbolismo da alquimia encontra-se o leão que come o sol e o cabrito que entra no ventre de sua irmã Beia. Ser engolido é descer aos infernos, reafundar no ventre da mãe, extinguir a consciência, matar o eu que se afoga no inconsciente, na goela voraz da morte. "A viagem para o Hades, a Nekyia, o engolimento pela besta do caos, embora sejam as penúrias do inferno e da morte, são, no entanto, a condição prévia para a salvação e o renascimento." E no jogo da Baleia Azul os desafios de subir em um telhado alto, sentar-se na borda de uma ponte, ir a uma estrada de ferro, assistir a filmes de terror têm estreita relação com preparar-se para ir ao encontro da morte, do monstro, do dragão (o trem), da terra, da água, todos símbolos femininos, do útero do qual todos surgiram.
     O jogo da Baleia Azul não passa de um equívoco que literaliza uma necessidade simbólica de morrer. Na verdade, ele se torna tão polêmico e perigoso porque hoje em dia não fazemos mais a leitura simbólica, não observamos mais a realidade e o humano como são. Estamos muito ocupados e desligados do presente e de nosso interior, nossos instintos, emoções e sentimentos. Quanto mais das pessoas que nos são próximas... Ele está aí para dizer que precisamos morrer, nos transformar, mudar. "O paradoxo curioso é que quando eu me aceito como eu sou, então eu mudo." - Carl Rogers.


AGRADECIMENTOS

A Hugo Guimarães pelo texto ENTRE O VENTRE E O TÚMULO – UM OLHAR ARQUETÍPICO SOBRE A BALEIA AZUL, de onde tirei o link para os 50 desafios do jogo Baleia Azul.

REFERÊNCIAS

BRANDÃO, Junito de Souza. Mitologia grega. 6. ed. Petrópolis: Vozes, 1990. v. 1.

Novo Dicionário Aurélio versão 6.0 - Dicionário Eletrônico - Conforme a Nova Ortografia [CD-ROM], Positivo Informática, 2009.

STEPHENSON, Bret. From boys to men: spiritual rites of passage in an indulgent age. Rochester: Park Street, 2004.

domingo, 12 de março de 2017

Orgulho - o desprezo de mim mesmo

     Um dos maiores erros que o ser humano pode cometer, principalmente porque dele decorrem vários outros erros e complicações que podem levar, inclusive, ao fim da espécie, é não se aceitar como é. Não se aceitar, não se amar, promove uma cisão na personalidade. Se rejeito quem sou, logo existem duas personalidades em mim: quem despreza e quem é desprezado. E geralmente utilizamos de um artifício ainda mais ardiloso para não nos encontrarmos interiormente com aquela "persona non grata", pessoa indesejável. Nos recusamos a percebê-la, a escondemos de nós mesmos, fingimos que nunca a conhecemos.
     Ao mesmo tempo que repelimos essa parte sombria, idealizamos quem gostaríamos de ser, almejamos ser quem não somos. Isso se encontra bem expresso na trama da queda de Lúcifer. Este desejava ser como Deus, almejava substituí-lo. Deus percebeu o que ocorria e o expulsou do céu. O mesmo tema se desenrola de novo no Jardim do Éden, com a expulsão do casal primordial por ter caído (isso mesmo!) na tentação de querer ser como Deus, que sabe diferenciar o bem do mal. Este é o conhecido "pecado original". Entretanto, a religião reconhece apenas o aspecto mais superficial, de o homem, inicialmente, querer se igualar ao divino. Psicologicamente, porém, um dos pontos de vista menos explorados é o fato de haver uma recusa do homem e do anjo da luz em se aceitar como são - o início da divisão interna do homem. Assim, de um lado permanece a unidade original, Deus; do outro lado, a parte que é expulsa do paraíso - o homem e Satanás. A unidade, assim, representa o estado inconsciente primitivo e potencial; já a dualidade significa a consciência, o conhecimento do caráter duplo de tudo o que existe: o bem e o mal, o negativo e o positivo, o agradável e o desagradável, etc. A duplicidade aponta para o jogo de luz/sombra, por meio do qual os elementos se tornam perceptíveis. Luz sem sombra ofusca; sombra sem luz, torna tudo obscuro.
     O Diabo é conhecido no meio cristão como o "pai da mentira". Do grego, DIA- (através) + BALLEIN (jogar, lançar, atirar), diaballein ou diabo significaria "jogar através", "lançar através", isto é, dividir, separar, guerrear, conflitar. Logo, essa figura rejeita a unidade, que é divina, considerada "verdade" e de posse do paraíso. Já a palavra "símbolo" deriva de SYN- (junto) + BALLEIN (lançar, jogar, atirar), indicando "o que se lança junto", "jogar junto", com o sentido de comportar, no mínimo, dois elementos diferentes em união. O símbolo possui uma parte clara, conhecida, que é a figura pela qual o percebemos; ao mesmo tempo, contém outra parte, desconhecida, o seu sentido, da qual somos inconscientes. A poesia, os textos religiosos, os mitos, os contos de fada, os sonhos, as visões e as fantasias são repletos de símbolos. Portanto, se o símbolo, pelo menos etimologicamente, se opõe ao Diabo, indicaria este tudo o que é literal, claro e plenamente expresso? Penso que sim.
     O sentido do Diabo seria a tendência que todos temos em nos identificar com apenas um dos extremos, ser parcial, um polo apenas. Não é possível a identificação com os dois aspectos opostos de um mesmo elemento, pois se dou o mesmo valor aos dois lados, é sinal de que me distancio de ambos. Desse modo, não sou possuído pelo vício ou pelo anseio do prazer do objeto ou pessoa. É interessante, nesse sentido, o fato de que os dependentes químicos tendem a perder, com o tempo, a noção da linguagem simbólica, e que, na medida que a recuperam ou a desenvolvem, conseguem se distanciar das drogas. O mesmo é válido para os psicóticos, uma vez que se encontram muito prejudicados em perceber seus conteúdos internos de forma simbólica, o que os leva a tratá-los como literais, isto é, reais, projetando-os no mundo exterior. Esta explanação sobre o símbolo explica porque o desenvolvimento do pensamento científico isoladamente, tal qual é amplamente divulgado hoje em dia, é nocivo psicologicamente. A ciência pode transformar o indivíduo em demônio de si mesmo e de seus semelhantes.
     Com a tentação e a queda do homem veio o trabalho, a dor e a morte. Isso ocorreu porque, para haver trabalho a condição necessária é a oposição de dois polos, uma diferença de potencial: positivo e negativo (corrente elétrica), baixo e alto (caixa d'água), expansão e contração (motor), etc. A dor e a morte acompanham porque, com a identificação a um dos opostos, de tempos em tempos somos levados, involuntariamente, ao polo oposto, pois este aflora assim que a identificação afrouxa. Isto ocorre principalmente quando estamos cansados, estressados ou de alguma maneira incomodados. A força do nosso eu para deixar os conteúdos indesejados à distância diminui. Esses aspectos, então, vêm à tona. Com isso, dolorosa, apesar de temporariamente, mudamos, "morremos" para quem éramos. Assim que nos recuperamos, voltamos novamente à posição anterior, tradicional, segura. Esse processo ocorre continuamente até que aprendamos a nos distanciar dos extremos, alcançando e trilhando o caminho do meio. O Budismo aborda essa questão pela via do desejo: precisamos parar de desejar, uma vez que isso só leva ao sofrimento.
     É curioso que, em geral, associa-se a atitude do Diabo ao orgulho próprio. Seria, portanto, o orgulho uma forma de atitude extrema? Sim, porque o indivíduo prioriza, na imagem de si mesmo, o ideal coletivo ou particular, sem levar em conta sua personalidade total, que comporta também os aspectos opostos. Isso fere a unidade original, a totalidade psíquica, representada por Deus, uma das imagens do arquétipo do Si-mesmo. Ele tenta tomar o todo pela parte, generalizar para si o que é somente uma pequena porção. Isso desequilibra o estado de harmonia psíquica, que pode levar a sérias patologias. A própria Bíblia exemplifica esses casos em um episódio do livro de Daniel (clique aqui para acessar o relato completo), quando Nabucodonosor se ensoberbece, sonha com o prenúncio do próprio episódio psicótico temporário, tem seu sonho corretamente interpretado pelo profeta e depois de um ano volta a se autoengrandecer. Anuncia-se a doença e seu afastamento temporário do reinado, o rei passa a ter comportamentos próprios de animais e, depois de um tempo, volta à razão, atribuindo à grandiosidade antes imputada a si a Deus.
     Diabo, Deus, paraíso, Adão e Eva... mais do que personagens de antigas histórias, verídicas ou não, fazem parte de uma trama que encenamos diariamente. Importa menos se são mitos, ou se, admirados pela origem sagrada, sejam sempre lembrados como imagens perenes do que nos aguarda após a morte. Mais importante é lembrarmo-nos deles como realidades vivas em nós, a quem devemos atentar para não cairmos presas de sofrimentos inconscientes, para não sermos lançados no fogo do inferno de nossas paixões e podermos gozar um pouquinho do céu para, quem sabe um dia, conseguirmos permanecer por mais tempo no paraíso.


REFERÊNCIAS E BIBLIOGRAFIA

BÍBLIA. Português. A Bíblia de Jerusalém. Tradução de Domingos Zamagna. São Paulo: Paulinas, 1985.
EDINGER, Edward F. Ego e arquétipo. 2. ed. São Paulo: Cultrix, 1992.
______. O encontro com o Self. 1. ed. São Paulo: Cultrix, 1991.
JUNG, Carl G. Psicologia e religião. Petrópolis: Vozes, 1978. v. 11/1.

domingo, 5 de março de 2017

Sistemas políticos e coletivos em oposição ao indivíduo

     Segundo Jung, sistemas coletivos como o partido político e o Estado são destrutivos para as relações humanas. Ao mesmo tempo, podem ser facilmente destruídos, na medida em que o indivíduo é inconsciente e incapaz de apreender o crescimento e a fusão das massas. O maior exemplo são os estados totalitários, que minam as relações pessoais por meio do medo e da desconfiança, com o fito de fragmentar a massa e, assim, sufocar a alma humana. "Até mesmo a relação entre pais e filhos, que é a mais íntima e natural, é rompida pelo Estado. Todas as grandes organizações, que perseguem exclusivamente fins materialistas, são as precursoras da massificação." Nem é preciso lembrar que o modelo mais patente dessa afirmativa é a implantação do Comunismo, como ocorreu na história recente. Nesse sistema, o sujeito era separado dos pais, ainda criança, para servir ao Estado.
     Porém, é preocupante o fato de também o Capitalismo servir a fins materialistas e ter um grande papel na massificação humana, com consequências para a perda de valores e até da saúde dos indivíduos. Mas a Ciência é outra instituição que serve, por enquanto, ao isolamento de funções psíquicas muito importantes ao bem-estar do ser humano, tais como o sentimento e a imaginação, devido à ênfase no ponto de vista materialista. Não é o Capitalismo isolado que possui efeitos nocivos, mas seu vínculo à Ciência positivista, a qual tem grande responsabilidade sobre a tecnologia empregada na produção industrial, que ainda ocorre independente de noções éticas ou de valores em relação à sua aplicação.
     A única forma de escapar a essa situação seria o desenvolvimento da consciência individual, que tornaria os sujeitos imunes à sedução das organizações coletivas. Isso ocorreria devido à preservação da alma, da psique, cuja base é o relacionamento humano. Jung fez essa apreciação sob o efeito da vivência da 2ª Guerra Mundial, cujos resultados prejudiciais sobre toda a humanidade perduraria ainda por décadas. A Alemanha sofrera uma psicose de massa, cuja maioria dos cidadãos se recusava insistentemente a admitir seu papel nas ações diretas danosas a outros povos, mesmo anos após a derrota do Führer. Não havia consciência da responsabilidade coletiva como sentimento humano geral, pois apenas "executavam ordens" ou não haviam feito nada pessoalmente prejudicial em consonância aos demais.
     O fato de a psicologia haver surgido aponta para uma reação a uma dinâmica que já se encontrava incipiente no inconsciente coletivo humano. Em certo momento na história, a pessoa real tornou-se um problema, e esta, enquanto indivíduo, se opõe fortemente ao totalitarismo e à massificação.

 
O interesse na psicologia tem a inevitável consequência de fortalecer a consciência individual, o que, segundo a experiência, é o melhor instrumento contra a influência devastadora da psique massiva. Se este movimento vingar e assumir maiores proporções, controla-se a fechadura da maior ameaça à nossa civilização. [...] O homem massificado significa catástrofe massificada. (JUNG, 2002, p. 82)
     Todas essas reflexões, embora aparentemente remotas, são atuais. Basta pensarmos no papel do terrorismo muçulmano e, por que não, no de um fenômeno bem mais próximo: a revelação do uso intenso da corrupção no Brasil. Infelizmente, os partidos só conseguem mirar um só objetivo - o poder; os relacionamentos humanos são iniciados ou mantidos para se conseguir força para galgar ou se manter o partido no poder. Este não constitui meio para se conseguir benefícios ao povo, exceto enquanto acalentador objetivo potencial, quando ainda permanece apenas na intenção de voto. Esse estado corresponde à fase de namoro de um casal. Por não se conhecer as agruras da convivência diária, que inclui não só as qualidades, mas também os defeitos do outro, tudo vai às mil maravilhas. Mas quando se casa (o partido assume o poder propriamente dito), aí vêm os problemas. O relacionamento com o poder torna-se o problema principal, enquanto o amor ao povo, aos carentes, aos analfabetos, aos doentes, aos desnutridos, as boas intenções prévias, ficam esquecidas.
     A saída, como já aludido, é o desenvolvimento da consciência individual, que passa pelo autoconhecimento, pela noção da situação psicológica pessoal. É preciso que os cidadãos e os políticos olhem para dentro de si e se reconheçam, percebam como são. O problema maior não é ter muitos defeitos, e sim não percebê-los como parte de si, em seu interior. É não aceitá-los como são. Porque, se não o fazemos, aí seremos eternos escravos de nosso lado sombrio, que permanecerá invisível, nosso ponto cego. Então, como eleitores, o elegeremos nossa autoridade; e, como político, faremos o que a massa inconsciente, nossa origem, seduz fazer desde sempre: corromper e ser corrompido.


(Leia mais a respeito: "A verdadeira atitude científica", "Tipos psicológicos: teoria e vivência", "A fascinação pela tecnologia", "A verdadeira atitude científica", "Consciência ética e moral no Brasil", "A crise e o espírito do tempo no Brasil de hoje", "Porque não consigo mudar")

REFERÊNCIAS

JUNG, Carl Gustav. Cartas II. Petrópolis: Vozes, 2002, p. 50, 78, 82.

segunda-feira, 25 de abril de 2016

Os três níveis de consciência

Diagrama do Tai-Chi chinês, representando a integração das polaridades Yin/Yang.
Créditos: facebook.com/vozesdobrasilmpbOficial/
     Os dois primeiros círculos apontam para um primitivo estágio de consciência, onde a realidade está dividida em simples opostos: o lado do bem e o lado do mal. Não existe nenhum movimento dos pontos, indicando que o indivíduo tem uma estrutura praticamente estática, inerte, empedrada. Nessa fase, a percepção da realidade só comporta dualidades - "ou estão do meu lado ou são meus inimigos", "se isso não é mau, é bom", "gosto do mocinho e odeio o bandido", etc. A personalidade é inflexível e as pessoas desse nível, difíceis de lidar. Estão identificadas com uma parte ou com a outra. "Sou assim!", e ponto final. Não há consideração pelo ponto de vista do outro. Dependendo do lado, são consideradas superficialmente bons cidadãos ou malfeitores pela sociedade.
     O par de desenhos seguinte retrata um nível intermediário de consciência, em que há a percepção de que, dependendo da perspectiva, algo considerado em geral mal, possui também aspectos bons. Ou que nada é puramente prejudicial, nem tão somente virtuoso. Aqui existe movimento nas duas "gotas", que aparentam um girino, isto é, um ser vivo, com dinamismo orgânico. A perspectiva estática dualista é lançada por terra. O indivíduo percebe que é uma mistura de defeitos e virtudes, e que é incapaz de determinar, em um certo momento, em dada condição, qual parte irá prevalecer. Existe mais flexibilidade com relação ao que se pode ser, de acordo com o que a situação exigir. Admite-se amar também os defeitos alheios. Mas a atividade dos "pingos" ainda é separada. Ora percebe-se o mal em si, ora no outro; se se nota que tem um lado positivo, não é possível a mesma observação, no mesmo instante, no outro. Estabelece-se o conflito: para que eu seja considerado bom, o outro tem que ser mal. Por isso, em uma discussão é quase impossível se sair da defensiva - ou me considero justo e o outro culpado ou vice-versa, sentindo-me confortável ou não.
     O desenho unificado configura um dinamismo e a ausência de conteúdos estagnados e separados. É um estágio avançado de consciência porque engloba todos os outros e vai além. Se existe conflito, este se configura apenas com o(s) outro(s), que não possui(em) a perspectiva total. Vivencia-se a dualidade em si e no outro, simultânea e ativamente. Existe aqui a flexibilidade e a inflexibilidade, assim como vários outros pares de opostos, conjugados de maneira temperada, de acordo com a vontade do sujeito. Mas "vontade" aqui é mais que um mero anseio do Eu, pois engloba que o indivíduo faça também aquilo que não é ou seria sua escolha no momento devido à compreensão de que também percebe a verdade oposta dentro de si.
     É preciso pontuar que nenhum desses estágios ocorre de forma estanque no ser humano. Do mesmo modo que a última figura contém todas as outras, as fases anteriores ocorrem ainda de maneira mais ou menos fortuita e momentânea no terceiro nível, prevalecendo aquele que tiver sido mais desenvolvido. Por vezes, um sujeito no primeiro estágio de consciência pode ter um insight instantâneo do que seja viver no terceiro, e isso pode ser a chave para iniciar uma grande mudança de vida. Do mesmo modo, um indivíduo relativamente realizado pode de repente "surtar", caindo rapidamente no primeiro ou segundo nível, para seu sofrimento.
     Se a figura completa do Tai-Chi for imaginada girando, nota-se que os dois pequenos anéis no interior do Yin e do Yang formarão cada qual um círculo e se manifestará um centro que se aplicará aos dois. Na figura sem movimento esse centro não se revela, apenas na dinâmica da vida, nesta em que há continuamente a alternância de estados, humores e situações. Assim é a totalidade humana, gerenciada a partir do centro imóvel e imutável, que se expressa nas mudanças de estados psíquicos. A psicologia chama a esse centro de Si-mesmo.
     Para a filosofia chinesa as mudanças prevalecem sobre as oposições. Não existe juízo de valor - um lado ser superior ao outro. Yin não é mal, nem Yang o bem. E assim é se se pensar na interação e alternância dessas oposições como vida. O primeiro "evoca a ideia de tempo frio e encoberto, e aplica-se ao que é interior, enquanto o termo Yang sugere a ideia de exposição ao Sol e de calor. Em outros termos, Yang e Yin indicam aspectos concretos e antitéticos do tempo. [...] O mundo representa, pois, 'uma totalidade de ordem cíclica, constituída pela conjugação de duas manifestações alternativas e complementares'" (ELIADE, 2011, p. 26). 
     Em um pequeno tratado está escrito: "Um (aspecto) yin, um (aspecto) yang, eis aí o tao". Ou seja, o tao, traduzido aqui como "vida", comporta dois aspectos opostos que se alternam. Esse vocábulo quer dizer também "caminho", evocando a imagem de uma trilha a seguir, a ideia de direção de conduta, de regra moral, e, por fim, a arte de pôr em comunicação o Céu e a Terra (Ibid. p. 27).
     Portanto, não se deve abrir mão da vida em favor de estados estáticos de prazer, nem de dor, no caso dos masoquistas, por mais difícil que isso possa parecer. Isso não é vida, mas morte em vida. Vida é movimento, é alternância, é mutação. O sofrimento e as doenças mentais advém de querermos impor a permanência de estados inconstantes, enquanto que permanente só pode ser nossa contemplação de sua passagem na nossa caminhada. E é claro que em grande parte não temos consciência dessa autoimposição, pois a incorporamos culturalmente. Se nos acostumarmos a tomar posição no centro, poderemos contemplar a totalidade dos processos vitais sem angústia. Neste caso alcança-se o verdadeiro estado de felicidade, pois nos colocamos no rumo do sentido, sob a direção do centro da personalidade.
     (NOTA: A leitura que faço do Tai-Chi é simbólica e aplica-se à psique humana, não se vinculando a nenhuma pesquisa científica.)

REFERÊNCIAS

ELIADE, Mircea. História das crenças e das ideias religiosas: de Gautama Buda ao triunfo do Cristianismo. Rio de Janeiro: Zahar, 2011. vol. II.

domingo, 28 de dezembro de 2014

Extinção ou renovação de valores?

     Ouve-se tanto falar em quebra ou destruição de valores e extinção de instituições – entre elas, a família, considerada por muitos uma das mais importantes. Mas será que tudo isso não é parte de um processo maior de renovação de valores e de instituições? Renovação porque, a princípio, tudo o que termina e é extinto, deve ou pode ser suplantado por outros processos ou estruturas. É claro que o curso dessas mudanças normalmente é muito doloroso, mas é justamente como ocorre em nossas próprias vidas. É uma reflexão apropriada para este final de ano.
     Eliade (2010, p. 105-107) relata uma crise no Egito de 2.200 a 2.050 a.C. que o sacudiu com uma grave guerra civil, a divisão em dois reinos e o desmoronamento do Estado. Ao final da crise houve um verdadeiro renascimento. Invoco esse acontecimento remoto para lembrar como esses processos ocorrem desde sempre. A residência real foi ameaçada de ser demolida, os túmulos das pirâmides foram pilhados, as províncias e os templos já não pagavam impostos... Com o vandalismo, destruía-se os túmulos dos ancestrais e se transportava as pedras para os próprios túmulos. Inúmeros mortos eram sepultados no rio. O faraó não era mais o “filho de Deus”.
     Um texto comovente da época, “O debate sobre o suicídio”, é um diálogo entre um homem atormentado pelo desespero e sua alma (bâ). “A quem eu falaria hoje? Os irmãos são maus, os companheiros de ontem não se amam. … Os corações são ávidos: cada qual deseja os bens do seu vizinho. … Já não existem justos. O país está abandonado aos que cultivam iniquidades. … O pecado que paira sobre a Terra não tem fim.” Mirce Eliade alega que textos como esse representavam mais que testemunhos de uma grande crise: ilustravam  a tendência do espírito religioso egípcio de ampliar-se, de conceder importância à “pessoa humana como réplica virtual do modelo exemplar, a pessoa do faraó” (ELIADE, 2010, p. 107). Por fim, após muito tempo, o faraó perdeu seu poder para que houvesse a concessão de relativa autoridade a cada indivíduo em particular. O que houve no Egito reflete um processo que ocorre até hoje: a marcha das mudanças, a renovação da vida que carrega consigo a “morte” de valores tradicionais. O que não dizer das variadas denúncias de corrupção que ocorrem hoje no Brasil, além da crise de valores que impera no mundo todo?
     A psicologia pode ter uma resposta para essas questões.

As pessoas não percebem que as nossas ideias gerais, nossas teorias gerais, são baseadas em princípios que já não estão mais vivos; pois elas não são ideias modernas. Muitas pessoas estão começando a lutar contra nossas instituições, porque eles não podem mais acreditar nos princípios por eles defendidos, por isso surgem os estados de agitação em toda a parte. Nossa moralidade é ainda baseada em suposições medievais. Gostaríamos de admitir que não acreditamos mais no fogo do inferno, mas o fato é que não temos outra base para a nossa moralidade, exceto a ideia do fogo do inferno. (JUNG, 2014, p. 194)
     Jung afirmou isso em 1929, mas sua constatação ainda é válida há mais de 80 anos!
     Por outro lado, o mesmo autor afirma que a palavra moral não possui um significado definitivo, já que é relativa. Em certas sociedades, por exemplo, era moral sacrificar crianças, torturar, comprar e vender escravos. Embora a associemos à ideia do bem e do mal, deve-se ter em mente que ela tem um significado relativo e não absoluto (JUNG, 2014, p. 195).
     Acontece que os símbolos religiosos que imperavam algum tempo atrás perderam sua energia. Já não estão vivos na psique da maioria das pessoas. O “Céu” e o “Inferno” medievais já não convencem. E aqui no Brasil o investimento simbólico na autoridade está se esgotando rapidamente, como já ocorreu em muitos outros países. Tende-se a compreendê-la como uma servidora do povo e não o contrário. Infelizmente, devemos ficar na expectativa de assistir ao nascimento do próximo símbolo que mobilizará as pessoas nesse novo tempo. Talvez isso ocorra ainda em muitas décadas, mas é certo que acontecerá como sucedeu em muitas outras épocas e povos. 



Referências
ELIADE, Mircea. História das crenças e das ideias religiosas: da idade da pedra aos mistérios de Eleusis. Rio de Janeiro: Zahar, 2010. vol. I.
JUNG, Carl Gustav. Seminários sobre análise de sonhos. Petrópolis: Vozes, 2014.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

A solidão e o trabalho com o inconsciente

     A solidão pode ser classificada em física, mental e espiritual. A primeira consiste em simplesmente retirar-se para uma floresta ou lugar deserto e não contar com a presença de pessoas. A segunda, no fato de não se poder levar em conta a presença dos amigos e familiares no próprio ambiente, ou até mesmo um estranho, para compartilhar um sofrimento, uma dor pessoal. A pessoa sente-se sozinha. A solidão espiritual é normalmente buscada por pessoas que procuram uma espiritualidade mais elevada, tais como monges e eremitas. Interessante é que nas tradições de muitos povos constam vários procedimentos de cautela com relação a pessoas que ficaram isoladas durante algum tempo. Qual seria a razão? (VON FRANZ, 1985, p. 194).
     Ocorre que, no dia a dia, as pessoas usam sua energia (a libido) disponível em suas relações com o meio ambiente. Na solidão essa energia, uma vez não empregada, é represada internamente e ativa o inconsciente, reforçando-o. A solidão pode fazer com que o indivíduo tenha seu inconsciente ativado, o que pode ocasionar a possessão por forças nocivas, ou encontre uma realização interior maior. Entretanto, mesmo neste último caso, a tendência é que, de início, haja sempre uma espécie de “possessão pelo mal”. Os que procuravam a santidade no passado inicialmente eram atacados por “demônios”, já que a energia disponibilizada pela solidão ativa primeiro os complexos autônomos do inconsciente. Assim que estes são resolvidos os frutos da solidão passam a ser positivos. Isso fica bem explícito nos diversos contos e casos expostos por Marie Louise Von-Franz (1985, p. 194-195), donde foi extraída a maior parte do presente texto.
     A própria autora, motivada por Jung, descreve como fez um experimento consigo mesma, se fechando em uma cabana nas montanhas, na neve. Uma típica introvertida, de início Von Franz (1985, p. 195) se sentiu muito feliz, se ocupando o dia inteiro com a cozinha e com o que iria comer no dia seguinte, o que evitou seu maior contato com o inconsciente. Além disso, ela esquiava, ia uma vez ao dia a uma vila para comprar pão e leite e travar certo contato com as pessoas, o que anulava o efeito do isolamento. Ela então decidiu reforçá-lo: passou a ingerir comida enlatada para não ir à vila, deixou de esquiar e passou a cozinhar rapidamente comidas “sem graça”, como macarrão e algo assim, de modo a não gastar sua energia. O tempo começou a se arrastar  muito lentamente, e cada minuto se tornou uma eternidade. A situação foi piorando, mas ela aguentou.
Comecei a imaginar que assaltantes costumavam entrar em tais cabanas, principalmente prisioneiros fugitivos à procura de armas ou roupas civis, caso ainda estivessem com o uniforme listrado. Essa fantasia tomou conta de mim por completo e, sem perceber que era justamente isso o que procurava, fiquei tomada pelo pânico. Peguei o machado de cortar lenha, coloquei-o ao lado da cama e fiquei acordada, tentando decidir se teria coragem de golpear tal homem na cabeça, se ele aparecesse, e, assim, não consegui dormir. Aí tive que ir ao banheiro que ficava fora, na floresta coberta de neve, e no meio da noite vesti as calças de esqui e saí pelo escuro. De repente algo caiu atrás de mim, saí correndo, caí de cara na neve e voltei ofegante. Daí percebi que era apenas um pouco de neve que tinha caído de uma árvore, mas com o coração aos pulos e o machado ao lado da cama, não consegui dormir. Na manhã seguinte achei que bastava e que devia voltar para casa, […] (VON FRANZ, 1985, p. 196)
Marie Louise Von Franz
     Então, de repente, ela percebeu que esse era o efeito que estava procurando: o inconsciente tinha sido ativado com a energia em excesso, soltando seus demônios... Ela resolveu fazer imaginação ativa (o conceito encontra-se em Vocabulário) com o assaltante, uma interação com essa figura interior através da imaginação, e se sentiu completamente bem e segura. Toda vez que a figura surgia em sua imaginação, Von Franz interagia com ela e a paz voltava. Antes de praticar a imaginação ativa, ela estava a caminho de ser sutilmente possuída.
     Essa experiência a ensinou que a solidão dá vida ao que existe no inconsciente. E se o indivíduo não souber como lidar com esse material, este surgirá primeiro de forma projetada. No seu caso a projeção veio sob a forma da ideia de um criminoso. Mas se ela estivesse em uma civilização que ainda acreditasse em demônios, ela poderia ter pensado que o Curupira havia chegado, dando nome ao conteúdo inconsciente. A maioria das pessoas não é capaz de lidar com situações desse tipo por muito tempo, recorrendo à companhia de outras para se proteger.
     Entretanto, a solidão não apenas constela o mal no interior do indivíduo, como também exteriormente. Quando um indivíduo vive sozinho, distante de uma comunidade humana por muito tempo, as pessoas começam a projetar a sombra delas sobre ele. Mesmo durante viagens prolongadas, quando o laço de afeição e de sentimentos se afrouxa, as pessoas deixadas para trás podem começar a tecer teias das mais incríveis ideias negativas a respeito daquela que as deixou. Porém, quando o que se afastou volta, o contato e o calor humano do momento dissipam essas nuvens de projeção. Assim, quem vive sozinho atrai o mal de sua própria natureza, mas também atrai projeções. Por isso os solitários dão a impressão de serem estranhos e, se ocorre algo desagradável, normalmente se pensava que a culpa era deles. Em tempos antigos isso era muito mais frequente. O estranho era considerado errado e perigoso, trazendo uma atmosfera de doença, de morte e de transtorno nas relações humanas. Por isso era preciso se aproximar dele com várias precauções. Hoje em dia, o indivíduo volta à comunidade e argumenta, se defende ou explica o próprio comportamento, o que dissipa as “nuvens negras”. Mas quando não conseguem compreender alguém, as pessoas projetam seu próprio mal sobre elas (VON FRANZ, 1985, p. 199).
     Entretanto, a ativação do inconsciente não depende apenas do isolamento, seja ele físico, psicológico ou espiritual. Certos processos psicológicos podem ativá-lo, o que produz forte impacto na consciência, fazendo o indivíduo se sentir ameaçado ou, no mínimo, desorientado. Em casos mais graves, o inconsciente pode tomar o lugar da realidade, o que é patológico (JUNG, 1991a, §595).
     Nesse momento, valem algumas reflexões sobre as implicações dos fatos demonstrados até este ponto. Constatou-se que, quando o inconsciente é ativado pelo isolamento, este ocorre dependendo do grau de isolamento e de represamento da energia à disposição do eu. Entretanto, pode-se imaginar que o inconsciente pode ser mais ou menos intensamente ativado a depender do nível de energia que possui, isto é, se ele já possui uma atividade intensa, um isolamento brando ou por pequeno período poderá fazê-lo mais veemente com relativa facilidade. Isso explica porque as crianças, que já possuem um contato mais direto e vigoroso com o inconsciente, são assaltadas por medos despertados por fantasias, quando ficam por pouco tempo sozinhas. Explica também porque adolescentes e mesmo adultos são assaltados por medos inexplicáveis em determinadas épocas, insistindo em dormir com a luz acesa, principalmente sob isolamento. Nessa categoria de medos irracionais pode-se citar os medos de morte, de acidente, de fantasmas, de criminosos, de manifestações meteorológicas inofensivas, etc.
     Por outro lado, é interessante observar como os indivíduos deprimidos insistem, naturalmente, em permanecer solitários. Essa condição apenas faz aumentar os sentimentos de angústia, medo e tristeza intensos que compõem a depressão. A solidão como que amplifica os sintomas, talvez em uma tentativa de intensificá-los para se fazerem notar pelo sujeito, aumentando a consciência da situação interna. Aliás, muitos psicoterapeutas recorrem a técnicas de amplificação de sintomas com o fito de produzir insights curativos. O exemplo mais claro é Mindell (1989), que pede uma descrição pormenorizada do sintoma e procura produzi-lo no cliente com a manipulação corporal deste pelo terapeuta ou por si mesmo.
     Tudo na vida possui aspectos positivos e negativos, dependendo da situação, do contexto. Não é diferente com a solidão. Se o estado de alguém é desesperador, é terapêutico se buscar a companhia de outras pessoas, embora possa ainda haver exceções. Já se existe a necessidade de autoconhecimento e de mudança, um período mais ou menos longo de solidão pode fazer muito bem. O Zaratustra de Nietzsche (2010) pode fechar aqui com uma boa reflexão:
Solitário, tu segues o caminho que leva a ti próprio! E teu caminho passa diante de ti e de teus sete demônios.
Serás herege para ti mesmo, serás feiticeiro, adivinho, louco, incrédulo, ímpio e malvado.
É mister que queiras consumir-te em tua própria chama. Como renascerias, se ainda não te reduziste em cinzas?
Solitário, segues o caminho do criador: um deus queres criar de teus sete demônios!