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quarta-feira, 4 de maio de 2016

A sombra do Brasil: banir ou integrar?

     Consideremos a nação brasileira como um sujeito possuidor de uma psique. O governo, o poder executivo, seria o eu; as instituições que o apoiam, o legislativo e o judiciário, fariam parte de todo o complexo do eu, regulador dos processos conscientes dentro da personalidade nacional, e que, ainda assim, comporta também certas instâncias inconscientes. O povo brasileiro, com suas numerosas instituições, representaria o inconsciente coletivo. Os diversos partidos personificariam os vários complexos pessoais inconscientes, que podem ou não se tornar mais ou menos conhecidos e identificados ou integrados ao eu.
Uma transposição do esquema psíquico para a nação brasileira.
     Essas comparações podem parecer mecânicas e simplistas, talvez porque pensemos que as pessoas, animais e coisas materiais "lá fora", vistas e apalpadas, sejam muito diferentes dos elementos psíquicos, estes sim, dinâmicos e de aparência muito mais "orgânica". Talvez tenhamos essa impressão por não percebermos a teia invisível que conecta a tudo e a todos externa e internamente. Não nos damos conta do "efeito borboleta", de como a batida de asas de uma borboleta pode desencadear, em seus vínculos inicialmente sutis, estragos como a passagem de um tufão. Portanto, o que me acontece a partir de fora, neste momento, neste lugar, está profundamente conectado interiormente comigo, com a minha pessoa, minhas ações, meus pensamentos. O que faço reflete em meu país e vice-versa.
     Na medida em que um partido tradicional permanece no governo, uma atitude de longa data insiste em continuar. Nada muda. Os partidos e os rebeldes ao governo ficam no "inconsciente", fora do eu, e, por isso conservam-se infantis, primitivos e desvalorizados. Ao assumir o governo, podem expressar traços dessas características. Exemplos disso é o modo como o governo, apesar de haver revitalizado a condição dos mais pobres, tratou tudo isso: a corrupção, a pretensão de que se poderia esbanjar dinheiro em programas sociais sem um limite mais real - talvez por ser o governo - sem que houvesse consequências, acreditar que o Brasil não estava em crise, etc.
     Se alguma parte dos "poderes" do eu, devido à rigidez deste, também fica longo tempo reprimida, acaba por manter-se subdesenvolvida e ingênua. Na medida em que são violentamente reprimidos, acabam conspirando para tornarem-se novamente visíveis e considerados parte do todo. À medida que o tempo passa, o tradicional governo se desgasta, pois não pode oferecer nada novo, já que realiza o que sabe, mas que é, ainda assim, insuficiente para abranger e praticar justiça ao todo. Produzir algo diferente é adotar a perspectiva oposta, que é considerada inimiga ou diabólica. Aliás, o novo sempre é diabólico, já que sua implantação requer um rebuliço no que é percebido como "normal": tudo vira um caos até que a ordem relativa ao novo se estruture e acomode a todos. Ao longo da história, isso ocorreu com várias inovações que quebraram antigos costumes: o rock, a ciência sobre a religião, seitas modernas, uma nova moda, um costume recente, etc.
Nenhum partido por si só representa a nação inteira.
A versão completa abarca a luz e a escuridão.
     Ora, se a consciência conservadora se desgasta, os aspectos sombrios ganham energia para novos arroubos. Podem se manifestar de maneira cada vez mais adaptada, com o tempo, obtendo o apoio de todo o "inconsciente", já que o representa, enquanto elemento sombrio. Se esse partido consegue assumir o eu consciente, conseguirá alguma inovação, na medida em que essa "assunção do eu" não for tão somente uma mera identificação. Quando me identifico com minha sombra, não penso no quanto estou diferente, mas excito-me com as novas atitudes que tomo, sem pensar nos valores tradicionais que me ocupavam outrora. É como se fosse tomado por uma paixão. Porém, infelizmente, esse fogo acaba um dia, e aí vou pensar no quanto fiz besteira em nome de uma chama provisória. Ao identificar-me com esses aspectos sombrios, não penso nas minhas outras partes. Estas já não me integram mais, só o novo. Porém, mal me dou conta de que nenhum elemento psíquico me pertence, mas sim à totalidade, que está muito além desse miserável e pequenino eu. Penso que foi mais ou menos isso que ocorreu com o PT.
     Ao se identificar - "Eu sou o governo", "Eu sou o povo", "Eu sou as instituições" - tomou mais do que pertencia a si. Pensou-se maior do que sua verdadeira medida. Inflacionou-se. Outro sintoma dessa inflação é a pretensão de atuar como ditadura, uma espécie de grande rigidez da consciência, uma intensa cisão psíquica, o que configurou, por exemplo, na intenção de censurar ou limitar a imprensa. O louvor do poder pelo poder acabou por degenerar em corrupção, já que não ocorreu uma distribuição equilibrada de recursos à consciência, aos instintos e arquétipos, mas sua usurpação pelo complexo-PT com que o eu-governo se identificou. Essa luta pelo poder parece ocultar uma espécie de medo de ser novamente relegado ao esquecimento, de ser desvalorizado e humilhado. Entretanto, o que ocorre com um balão inflado, com o tempo? Naturalmente, ele murcha até adotar a exata dimensão do seu ser real. Como partido que nunca teve o aval da psíquica nação, ao assumir, adotou posturas infantis e ações primitivas, inadequadas, ocorrência idêntica à inflação no contexto de um indivíduo. Alguns petistas, em um momento de lucidez, ousaram afirmar que, como nunca governou, "quem nunca comeu melado, quando come, se lambuza". E este é o ponto exato: não saber como se comportar adequadamente na direção da nação. Outros, delirados com o partido, não levam em consideração os demais, adotando um procedimento unilateral, tomando a parte pelo todo.
     Assim, não penso que o PT ou qualquer outro partido deva ser banido ou destruído, pura e simplesmente. Fazer isso é torná-lo mais sombrio, é mandá-lo de novo ao "inconsciente", de onde um dia há de voltar, talvez mais rude do que antes. Querendo ou não, ele representa parcela significativa do povo brasileiro, seus costumes, suas atitudes. Odiá-lo é, em uma perspectiva mais profunda, odiar a própria sombra que ora se projeta sobre o partido. Agora é momento de reflexão, de "baixar a bola" e se julgar com isenção, com mais maturidade, seja pelo PT, seja por cada cidadão brasileiro. O reconhecimento da culpa trará mais maturidade para que, mais adiante, quem sabe possa elevar-se novamente a uma posição dirigente, com menos presunção e mais equilíbrio. O maior mal da política é não saber administrar o poder, seu principal instrumento. Este deve servir ao povo, à nação, à totalidade, não a uma porção.
     RESSALVA: a comparação que faço aqui é aproximativa e limitada. A análise dos grupos e instituições não se estende aos indivíduos que os compõem. A associação dos conceitos psicológicos com partidos não tem fim depreciativo, pois quaisquer dos primeiros representam sempre figuras essenciais e muito importantes à psique coletiva.

(Leia mais a respeito: "Extinção ou renovação de valores?",

domingo, 1 de maio de 2016

A crise e o espírito do tempo no Brasil de hoje

A seca que abateu o Brasil em 2015 pode ser interpretada psicologicamente como uma
grande cisão da psique coletiva brasileira; a tensão estava no ar, até que, com as chuvas,
os processos políticos e de justiça fluíram novamente.
     A crise brasileira atual não é somente econômica e política, também inclui a saúde (vide os surtos das doenças do aedes aegypti e da gripe H1N1), e durante todo o ano passado (e não sei se este ano ainda estamos muito estáveis) foi também energética e hídrica. Também é uma crise moral, se pensarmos na corrupção como endêmica à população brasileira. São tantos aspectos negativos nesta fase atual, comparados a fases muito boas anteriores, como às do governo FHC e Lula, que podemos questionar o que haveria por trás de todos esses acontecimentos. Talvez uma breve análise e síntese de ideias possa dar um sentido geral a esses infortúnios.
     Já notei há muito tempo, na minha vida pessoal, o quanto os fatos de certo período da nossa vida parecem permeados por uma certa qualidade geral, um tema que atravessa todos os episódios em um determinado tempo. Em uma fase de um ano e meio, por exemplo, a vida de um amigo foi traspassada pelo tema "mudança", de maneira tanto prazerosa quanto dolorosa: nascimento de um filho, promoção no trabalho, mudança por duas vezes de domicílio e a morte de vários parentes seus e de sua esposa (vide o texto "Morte, sonho e sincronicidade"). Por esses dias recebi a notificação de multa de uma infração cometida há mais de três anos (como se sabe, as infrações não notificadas até trinta dias são arquivadas); no mesmo dia respondi a alguém que cobrava, no trabalho, a atualização de um sistema até certa data; dois dias depois chegou outra cobrança, tema dos eventos como um todo. Coincidências? Não acredito.
     É como se nossa vida fosse permeada por uma espécie de "campo de sentido" ou simbólico que possui uma característica específica em certo período de tempo. Jung aludiu a esse fenômeno como se o tempo possuísse uma qualidade em momentos definidos. Daí ocorrer a possibilidade de os oráculos funcionarem se nossas perguntas a eles estiverem baseadas em nossas preocupações e emoções, já que estas e o "campo simbólico" parecem estar estreitamente relacionados. A antiga filosofia chinesa chamava a esse campo de Tao.
     "O Sentido [Tao] se obscurece, quando fixamos o olhar apenas em pequenos segmentos da existência", cita Jung (1991, §913) de uma obra chinesa. "Para nós, os detalhes são importantes em si mesmos; para a mente oriental, os detalhes juntos é que formam sempre o quadro global", continua. Portanto, essa percepção da "qualidade" do momento advém da atenção ao todo, de forma geral, e não aos detalhes. É uma compreensão intuitiva da realidade.
A atenção ao tempo de médio e longo
prazo tornou possível sua divisão em
estações e anos, por exemplo. 
    Esses "campos simbólicos", em nossa vida pessoal, tendem a tornar a ocorrer, aparentemente, até que integremos o seu conteúdo em nossas vidas. No âmbito nacional, o sentido dessa crise também tende a acontecer com a incorporação, à consciência coletiva, do que se encontra inconsciente e que está extraindo muitos recursos de nossa consciência social. A corrupção é uma espécie de "complexo" que precisa ser analisado coletivamente, o que já está ocorrendo, para que possamos, de uma vez por todas, percebê-lo, trazendo os recursos de volta às nossas mãos. É preciso que cada brasileiro conheça seu potencial para a corrupção, suas faltas cotidianas, e saiba dizer "não" às tentações, em benefício da coletividade, sabendo do prejuízo que essas perversões trazem a todos. 
     Essa perspectiva é abrangente e não foca a responsabilidade dos sujeitos, não lança luz sobre as responsabilidades individuais, mas permite um alcance do sentido maior desse caos que tomou conta do Brasil. Somos todos instrumentos dessa trama e drama que se impõe. A par desse sentido, podemos ter esperança de que futuramente alcançaremos um cume mais alto do que os escalados até agora. A vida é uma tensão entre polaridades opostas, entre ciclos de alegrias e tristezas, prosperidades e penúrias, passividade e atividade. Esse jogo tensional é tanto mais instável quanto mais frágil o suporte dos elementos integrantes.
     Infelizmente, esse complexo nacional inconsciente não pode, de uma só vez, ser integrado como um todo, já que isso é muito difícil. Provavelmente, apenas certos aspectos estão enfatizados neste momento, e outros o serão no futuro, em outro ciclo. Mas, com certeza, há um grande potencial por trás que poderá ser de proveito a todos. Entretanto, é preciso que as defesas contra a conscientização desse complexo - a estrutura legislativa que permite o aproveitamento dessa desmoralização - sejam também analisadas e desfeitas. E o que está sendo realizado para isso? Antes, é preciso que cada político se conheça um pouco mais, assim como nós mesmos, pois é o indivíduo que compõe o povo brasileiro.
Na superfície, uma estrutura aparentemente sólida; na realidade, ela é sustentada
 sobre o dorso de um grande complexo inconsciente, que pode naufragar toda a nação, se não integrado.

sábado, 18 de abril de 2015

O casamento na atualidade

    Há milênios o casamento era um negócio onde as mulheres eram compradas e vendidas. Na realeza e nas famílias muito ricas chegava a ser quase uma transação semelhante à do gado. Portanto, não era importante a psicologia do indivíduo: seus interesses, desejos, ideias, crenças, etc. Representava uma instituição coletiva, e assim também era o relacionamento conjugal. Formava a interação entre dois papéis sociais - o marido e a esposa, e o casal era valorizado na medida em que podia e sabia como sustentar essas personas ou máscaras (JUNG, 2014).
    Entretanto, com a evolução do pensamento e a aquisição de certa cultura, o indivíduo foi enfatizado: agora seus desejos e direitos são levados em consideração. A psicologia surgiu para entender o sujeito e, por extensão, a sociedade. Ela se tornou necessária para possibilitar a adaptação e o ajuste, muitas vezes fino, entre dois ou mais indivíduos, e destes consigo mesmos. Não tínhamos um relacionamento individual, mas coletivo, o que só mudou com o surgimento do amor romântico ou paixão (Ibidem).
    O grande problema atual é o embate sobre o que se espera que o casamento seja, enquanto instituição coletiva, adequada à sociedade, e o que desejamos dele: um relacionamento individual, muito difícil de se criar dentro do casamento. A convivência apenas ao nível da persona, dos papéis, não é suficiente. Deve haver uma relação individual, sem a qual não existe o ajuste ou adaptação individual. O marido e a esposa apenas cumprem seu papel respeitável e esperado, por meio de princípios muitas vezes estreitamente associados à religião. A direção do casamento, como instituição coletiva, e a de uma empresa, não difere muito, já que ambos são geridos por contratos, com papéis bem definidos. Porém, cada um dos cônjuges é uma pessoa particular, com o qual se deve ter um relacionamento particular (Ibidem).
    Na relação conjugal coletiva costuma imperar a identificação projetiva (ou participation mystique), isto é, cada um dos parceiros projeta no outro uma parte da sua personalidade e o vivencia como se fosse o conteúdo da projeção. Desse modo, cada um dispõe de um meio inconsciente para controlar o outro de acordo com o ponto de vista interno. Assim, um cria a condição do outro e conclui as decisões do outro, dependendo deste para se tornar o que é (SAMUELS, 2003). Após algum tempo de convivência, as pessoas se influenciam reciprocamente, um assimila o outro e ambos se tornam semelhantes. Ocorre que esta identidade e fusão é um grande obstáculo ao relacionamento individual. Pois, se são idênticos, não existe relacionamento, já que este só ocorre entre pessoas diferentes, isto é, separadas psiquicamente. Uma vez que essa identificação projetiva é a situação habitual no casamento, principalmente quando os cônjuges são jovens, uma relação individual é impossível (JUNG, 2014).
    Se ambos escondem segredos um do outro, admiti-los pode ajudar a estabelecer um relacionamento individual. Se não existem segredos, então nada pode protegê-los da participation mystique. Neste caso, nada demais ocorre no casamento, que fica sem tempero, sem emoção (Ibidem). 
    Portanto, ao que tudo indica, o relacionamento individual dentro do casamento depende da sinceridade de ambos os cônjuges. Sinceridade no sentido da revelação explícita, de um para o outro, de quem se é realmente, sem máscaras, sem segredos. O caso alegado acima, onde em um casamento não existe segredo parece partir do pressuposto de que o marido e a mulher não têm consciência de seus seres genuínos, autênticos. Por isso eles acabam por concluir que não possuem nenhuma confidência a fazer. No entanto, até a sinceridade extrema pode trabalhar para a ausência de diferenças, uma vez que não haveria qualquer reserva, podendo isso ocasionar um controle de um dos cônjuges sobre o outro. O confidente pode se ofender com a franqueza ingênua, usando a revelação contra o outro, criticando-o ou reclamando, se esforçando para que ele se encaixe dentro dos moldes da persona conjugal. Isso levaria o casamento ao patamar coletivo, da mesma forma como este pode entediar e levar à confissão individual. Por isso, a posição ideal é o trabalho da consciência individual, que procurará a adaptação ao momento vivido, com atenção, sem se desbancar para um dos extremos, pois estes se tornam hábitos e, por conseguinte, inconsciência do próprio comportamento.
    Parece-me que a insistência e a resistência ao casamento homossexual decorre desse mesmo embate entre casamento como instituição individual versus coletiva. Este serve à sociedade, à tradição, à persona; aquele, aos sujeitos tais quais são, com suas características e objetivos pessoais em primeiro plano. No âmbito da sociedade, podemos considerar essa oposição como um sintoma do que acontece ao nível da psique do indivíduo: o que era encoberto vem à tona, como ocorre a um segredo. Se esse segredo não é compartilhado e difundido, sem aberraçoes extremas, é claro, a convivência se torna monótona. O ser espontâneo, a verdade e o novo são reprimidos para que uma máscara possa encobri-los. Não existe vida nisso, mas sim uma dramatização, um fingimento - a morte em vida. A existência não se renova, mas definha no choro contido. Então os mesmos sintomas que assediam o indivíduo nessas mesmas condições, tomam conta da sociedade como um todo: homicídios (repressão), falta de educaçao (inconsciência), violência (depressão), insegurança, miséria (falta de criatividade), protestos (ansiedade), etc. Um projeta no outro e na massa a carência, o buraco interno. A coletividade em geral só estará em harmonia na medida em que seus indivíduos estejam mais ou menos centrados.
A psicologia do indivíduo corresponde à psicologia das nações. As nações fazem exatamente o que cada um faz individualmente; e do modo como o indivíduo age, a nação também agirá. Somente com a transformação da atitude do indivíduo é que começará a transformar-se a psicologia da nação. Até hoje, os grandes problemas da humanidade nunca foram resolvidos por decretos coletivos, mas somente pela renovação da atitude do indivíduo. (JUNG, 1987b, prefácio)




REFERÊNCIAS


JUNG, Carl G. Psicologia do inconsciente. 7. ed. Petrópolis: Vozes, 1987b. v. VII/1.
JUNG, Carl G. Seminários sobre análise de sonhos. Petrópolis: Vozes, 2014, p. 78-80.
SAMUELS, Andrew. Dicionário crítico de análise junguiana. Edição Eletrônica, 2003 Andrew Samuels/Rubedo. Disponível em: <http://www.rubedo.psc.br/dicjung/listaver.htm> Acesso em: 14 out. 2010, 22:49:00.

domingo, 28 de dezembro de 2014

Extinção ou renovação de valores?

     Ouve-se tanto falar em quebra ou destruição de valores e extinção de instituições – entre elas, a família, considerada por muitos uma das mais importantes. Mas será que tudo isso não é parte de um processo maior de renovação de valores e de instituições? Renovação porque, a princípio, tudo o que termina e é extinto, deve ou pode ser suplantado por outros processos ou estruturas. É claro que o curso dessas mudanças normalmente é muito doloroso, mas é justamente como ocorre em nossas próprias vidas. É uma reflexão apropriada para este final de ano.
     Eliade (2010, p. 105-107) relata uma crise no Egito de 2.200 a 2.050 a.C. que o sacudiu com uma grave guerra civil, a divisão em dois reinos e o desmoronamento do Estado. Ao final da crise houve um verdadeiro renascimento. Invoco esse acontecimento remoto para lembrar como esses processos ocorrem desde sempre. A residência real foi ameaçada de ser demolida, os túmulos das pirâmides foram pilhados, as províncias e os templos já não pagavam impostos... Com o vandalismo, destruía-se os túmulos dos ancestrais e se transportava as pedras para os próprios túmulos. Inúmeros mortos eram sepultados no rio. O faraó não era mais o “filho de Deus”.
     Um texto comovente da época, “O debate sobre o suicídio”, é um diálogo entre um homem atormentado pelo desespero e sua alma (bâ). “A quem eu falaria hoje? Os irmãos são maus, os companheiros de ontem não se amam. … Os corações são ávidos: cada qual deseja os bens do seu vizinho. … Já não existem justos. O país está abandonado aos que cultivam iniquidades. … O pecado que paira sobre a Terra não tem fim.” Mirce Eliade alega que textos como esse representavam mais que testemunhos de uma grande crise: ilustravam  a tendência do espírito religioso egípcio de ampliar-se, de conceder importância à “pessoa humana como réplica virtual do modelo exemplar, a pessoa do faraó” (ELIADE, 2010, p. 107). Por fim, após muito tempo, o faraó perdeu seu poder para que houvesse a concessão de relativa autoridade a cada indivíduo em particular. O que houve no Egito reflete um processo que ocorre até hoje: a marcha das mudanças, a renovação da vida que carrega consigo a “morte” de valores tradicionais. O que não dizer das variadas denúncias de corrupção que ocorrem hoje no Brasil, além da crise de valores que impera no mundo todo?
     A psicologia pode ter uma resposta para essas questões.

As pessoas não percebem que as nossas ideias gerais, nossas teorias gerais, são baseadas em princípios que já não estão mais vivos; pois elas não são ideias modernas. Muitas pessoas estão começando a lutar contra nossas instituições, porque eles não podem mais acreditar nos princípios por eles defendidos, por isso surgem os estados de agitação em toda a parte. Nossa moralidade é ainda baseada em suposições medievais. Gostaríamos de admitir que não acreditamos mais no fogo do inferno, mas o fato é que não temos outra base para a nossa moralidade, exceto a ideia do fogo do inferno. (JUNG, 2014, p. 194)
     Jung afirmou isso em 1929, mas sua constatação ainda é válida há mais de 80 anos!
     Por outro lado, o mesmo autor afirma que a palavra moral não possui um significado definitivo, já que é relativa. Em certas sociedades, por exemplo, era moral sacrificar crianças, torturar, comprar e vender escravos. Embora a associemos à ideia do bem e do mal, deve-se ter em mente que ela tem um significado relativo e não absoluto (JUNG, 2014, p. 195).
     Acontece que os símbolos religiosos que imperavam algum tempo atrás perderam sua energia. Já não estão vivos na psique da maioria das pessoas. O “Céu” e o “Inferno” medievais já não convencem. E aqui no Brasil o investimento simbólico na autoridade está se esgotando rapidamente, como já ocorreu em muitos outros países. Tende-se a compreendê-la como uma servidora do povo e não o contrário. Infelizmente, devemos ficar na expectativa de assistir ao nascimento do próximo símbolo que mobilizará as pessoas nesse novo tempo. Talvez isso ocorra ainda em muitas décadas, mas é certo que acontecerá como sucedeu em muitas outras épocas e povos. 



Referências
ELIADE, Mircea. História das crenças e das ideias religiosas: da idade da pedra aos mistérios de Eleusis. Rio de Janeiro: Zahar, 2010. vol. I.
JUNG, Carl Gustav. Seminários sobre análise de sonhos. Petrópolis: Vozes, 2014.

sábado, 25 de outubro de 2014

Ser sincero, falar tudo, união e relacionamento

     Alguns parceiros acreditam que ser sincero, no âmbito do namoro ou do casamento, é falar tudo sobre nossos pensamentos, sentimentos, fantasias, sensações e emoções. Nada mais enganoso. A intenção aí parece ser a entrega total ao ser amado e que isso seja um símbolo da rendição a esse amor. Sim, intenção, porque o que passa a ocorrer é outra coisa.
     No momento em que alguém fala tudo sobre si para o outro, a pessoa não mais se responsabiliza pelos conteúdos que ocorrem em sua mente, já que o outro está a par de tudo. Dá-se ao outro a oportunidade e a chave para o controle da própria vida, e esta pode virar um inferno, pois quem quer ser totalmente controlado? Ao mesmo tempo, o outro se sente na responsabilidade de dominar a pessoa, pois esta lhe parece ingênua e irresponsável, o que é totalmente verdade, pois abriu mão de decidir o que dizer e não dizer ao parceiro. Esse controle pode transformar-se em um ciúme incontrolável, pois parte da premissa que alguém requer o nosso domínio, o que é ilusório. Ninguém pode controlar totalmente outra pessoa. E devido a essa verdade desafiar constantemente os dois lados, advém o ciúme, resultado de querer impor um controle impossível.
     Mas então não se pode ser sincero? A questão não é essa, mas o que pensamos a respeito da sinceridade. O que é ser sincero? Ser sincero é arcar com a própria responsabilidade sobre os conteúdos internos. É estar ciente de que, apesar de às vezes ocorrer algum pensamento ou sentimento infiel, sabe-se o que se quer, e que não se pode ter tudo. É ter a capacidade de decidir de acordo com a própria vontade e agir de acordo. Ser sincero com o outro é ser franco consigo mesmo, é se desafiar, é saber que existe um preço para tudo e pagar por ele. Ser sincero com o outro é não mentir para si mesmo, acima de tudo. Por outro lado, contar tudo se baseia no sentimento de que tudo é de graça, de que se está livre e se pode ser o que se é com o parceiro, de que todos os problemas estão resolvidos com “falar o que vier”. É voltar a ser criança, acreditando que não haverá maiores consequências. Já a sinceridade envolve muita maturidade.
     “Falar tudo” é querer se fundir, não estar separado e ser no outro. Não existe união, mas fusão. Na união ocorre a ligação entre duas personalidades diferentes; na fusão, uma junção baseada na ilusão de que as duas personalidades são iguais ou "almas gêmeas", por exemplo. Como a ilusão está em constante contradição com a realidade, os conflitos tenderão a ocorrer com frequência cada vez maior até que ocorra uma crise com a constatação das diferenças de cada parte, a grande decepção. Toda decepção se baseia em um engano com relação à imagem que se tem do parceiro. Na maior parte das vezes os parceiros projetam um no outro a expectativa do seu ideal de homem ou mulher, se recusando a corrigir a imagem que têm um do outro a partir dos vários indícios que se apresentam diariamente. Não corrigem essa imagem porque isso traria sofrimento, um ferimento e muitos conflitos ao relacionamento. Mas chega um ponto que um fato mostra claramente a contradição do que se esperava do outro e daquilo que ele realmente é. Vem a desilusão, o desengano, o grande desapontamento, a intensa contrariedade. A partir desse momento pode ocorrer uma separação definitiva, ou um reinício do relacionamento, desta vez baseado em premissas mais verdadeiras: a de que um é diferente do outro. Só o diferente pode se unir, pois quando se fala na união de duas pessoas, supõe-se que sejam diferentes, que há um encontro, pois então não seriam duas, mas uma só. Neste caso não haveria união, mas permanência da mesma condição anterior de inatividade e não de reunião.
     E o que fazer nesse caso, quando se chegou a uma crise, por exemplo, em um casamento, e se deseja uma “re-união”, agora baseada na realidade que são os dois cônjuges? A psicoterapia pode ser de grande ajuda. Ela ajudará cada lado a tomar consciência de si, a saber quem se é, como ocorreu o processo que findou na crise conjugal e como lidar com o “novo” parceiro. O casamento é então renovado, os cônjuges se sentem como se estivessem em um novo casamento, o que é totalmente verdade. A antiga fusão cedeu à união e os parceiros estarão mais bem preparados para enfrentar a vida juntos, sabendo que agora são dois, continuam sendo dois, mas em um.