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sábado, 11 de fevereiro de 2017

Consciência ética e moral no Brasil


     A postagem abaixo teve grande repercussão na Internet, principalmente devido aos recentes eventos no Espírito Santo, retratados no vídeo acima.

PSICOLOGIA DE POLÍCIA E BANDIDO
Na greve da PM no Espírito Santo cidadãos comuns foram vistos realizando saques em lojas e supermercados. A ausência da polícia revela uma realidade assustadora: o caos ético e moral que se encontra o nosso país. Quando a polícia se torna a regra de conduta das pessoas, o instrumento de controle que as impede de cometer crimes percebe-se a falta de consciência ética e moral. Retirada a polícia vem a tona o desejo latente de um povo corrupto. Idiotice pensar que só políticos são desonestos, tendo oportunidade, muitos se tornam criminosos. A conclusão é a seguinte: Se precisamos de polícia para sermos honestos, somos uma sociedade de bandidos soltos!
Sérgio Oliveira – Teólogo e psicólogo

     Infelizmente, podemos ser muito iludidos devido ao verniz tecnológico do nosso tempo. O uso das diferentes tecnologias dá a impressão de que somos uma "civilização", no uso do sentido pleno que essa palavra expressa. Algo semelhante ocorreu durante a II Guerra Mundial: por trás do lastro cultural da Alemanha percebemos como todo um povo foi arrastado em uma psicose coletiva, seguindo Hitler, um líder com um sonho mitológico de construção de uma nação de raça "pura". Analisando a situação, Jung afirmou que o Cristianismo não conseguira transformar a psique coletiva alemã, mas se impusera, encobrindo o bárbaro infundido pelos deuses nórdicos. Esse bárbaro veio à tona, de novo, nos tempos atuais.
Só começamos a nos discipli-
nar quando percebemos o quanto
somos fracos.
     O caos no Espírito Santo deixa explícito que, no âmbito geral, nossa educação não está conseguindo trabalhar a psique dos indivíduos. Na medida que essa educação é impositiva, trabalha os conteúdos de pensamento apenas como função da memória, não abarca a função sentimento, que lida com os valores, e nem com a sensação e a intuição, que ocupam-se com as impressões dos sentidos e com a imaginação, permanecemos bárbaros. A educação impositiva apenas imprime, superficialmente, o que "deve" ser, o comportamento que deve ser reproduzido, copiado do modelo exigido. Porém, uma educação, no rigor da palavra, irá explicar o motivo desse comportamento, expressará os sentimentos correspondentes que cada um distingue em si, perceberá, com detalhes, as impressões envolvidas e as possibilidades decorrentes da conduta considerada.
     O emprego da polícia envolve a pressão para que cada um vigie seu próprio comportamento, sobretudo para não manifestar os impróprios perto dos outros cidadãos, que podem chamar a polícia, e desta, propriamente dita. Se a educação dos cidadãos se baseia nessa pressão do outro, não é de admirar que, na sua ausência, a conduta reprimida venha à tona. O que surpreende, porém, é que esse mecanismo seja descoberto, pois nunca esperávamos que pudéssemos ser tão corruptos, tão próximos do comportamento de vários odiosos políticos de Brasília.
     O maior problema é se diferenciar a repressão da verdadeira disciplina. 
A repressão parece menos dolorosa que a disciplina. Mas é mais perigosa, pois nos faz agir sem a consciência dos nossos motivos, de modo irresponsável. Mesmo que não sejamos responsáveis pelo que somos e sentimos, precisamos nos responsabilizar por como agimos, isto é, nos disciplinar. E a disciplina é a capacidade de, quando necessário, agir contra nossos sentimentos. (WHITMONT in ZWEIG e ABRAMS, 1994, p. 41) 
     É bem mais fácil reprimirmos um comportamento do que nos disciplinarmos verdadeiramente. Na primeira atitude nós descartamos todo e qualquer pensamento ou sentimento relacionado à conduta imprópria. Consideramos, como maioria religiosa, estes conteúdos como formas de pecar. Toda tentação é pecado. E mal nos damos conta que até Cristo foi tentado... Entretanto, precisamos nos dar conta de que esses conteúdos aparentemente "pecaminosos" tornam-se muito mais perigosos quando reprimidos, pois aí precisamos dos outros para nos policiar, uma vez que não estamos mais conscientes dos motivos que podem nos mover. Essas impressões más, erradas, uma vez reprimidas, continuam em nós, mas encobertas, ocultas. Na primeira oportunidade em que a pressão exterior é removida, essas ânsias internas vêm à tona e as executamos no ímpeto, sem nenhuma crítica. Repressão é sinônimo de hipocrisia, pelo menos do ponto de vista psicológico.
     Já a disciplina envolve ficarmos a par, a todo momento, dessas "maldades" internas, do fato de que somos transgressores ou criminosos em potencial. Com isso, podemos e devemos policiar a nós mesmos. Se nos achamos muito puros, bons ou inocentes, não precisamos de "guardas" internos e de nenhuma vigilância interior. No entanto, como é tranquilizante termos essa bela imagem de nós mesmos!
     Mas eventos como esses são muito positivos. Mostram-nos como somos de fato. Nos decepcionam, frustram e entristecem. Esses são sentimentos muito positivos, que provocam transformações. E é disso que mais precisamos. O maior trabalho que podemos fazer para a política brasileira e para os cidadãos em geral é voltarmos nossa atenção para nosso íntimo, e percebermos o que realmente lá se encontra.

quarta-feira, 4 de maio de 2016

A sombra do Brasil: banir ou integrar?

     Consideremos a nação brasileira como um sujeito possuidor de uma psique. O governo, o poder executivo, seria o eu; as instituições que o apoiam, o legislativo e o judiciário, fariam parte de todo o complexo do eu, regulador dos processos conscientes dentro da personalidade nacional, e que, ainda assim, comporta também certas instâncias inconscientes. O povo brasileiro, com suas numerosas instituições, representaria o inconsciente coletivo. Os diversos partidos personificariam os vários complexos pessoais inconscientes, que podem ou não se tornar mais ou menos conhecidos e identificados ou integrados ao eu.
Uma transposição do esquema psíquico para a nação brasileira.
     Essas comparações podem parecer mecânicas e simplistas, talvez porque pensemos que as pessoas, animais e coisas materiais "lá fora", vistas e apalpadas, sejam muito diferentes dos elementos psíquicos, estes sim, dinâmicos e de aparência muito mais "orgânica". Talvez tenhamos essa impressão por não percebermos a teia invisível que conecta a tudo e a todos externa e internamente. Não nos damos conta do "efeito borboleta", de como a batida de asas de uma borboleta pode desencadear, em seus vínculos inicialmente sutis, estragos como a passagem de um tufão. Portanto, o que me acontece a partir de fora, neste momento, neste lugar, está profundamente conectado interiormente comigo, com a minha pessoa, minhas ações, meus pensamentos. O que faço reflete em meu país e vice-versa.
     Na medida em que um partido tradicional permanece no governo, uma atitude de longa data insiste em continuar. Nada muda. Os partidos e os rebeldes ao governo ficam no "inconsciente", fora do eu, e, por isso conservam-se infantis, primitivos e desvalorizados. Ao assumir o governo, podem expressar traços dessas características. Exemplos disso é o modo como o governo, apesar de haver revitalizado a condição dos mais pobres, tratou tudo isso: a corrupção, a pretensão de que se poderia esbanjar dinheiro em programas sociais sem um limite mais real - talvez por ser o governo - sem que houvesse consequências, acreditar que o Brasil não estava em crise, etc.
     Se alguma parte dos "poderes" do eu, devido à rigidez deste, também fica longo tempo reprimida, acaba por manter-se subdesenvolvida e ingênua. Na medida em que são violentamente reprimidos, acabam conspirando para tornarem-se novamente visíveis e considerados parte do todo. À medida que o tempo passa, o tradicional governo se desgasta, pois não pode oferecer nada novo, já que realiza o que sabe, mas que é, ainda assim, insuficiente para abranger e praticar justiça ao todo. Produzir algo diferente é adotar a perspectiva oposta, que é considerada inimiga ou diabólica. Aliás, o novo sempre é diabólico, já que sua implantação requer um rebuliço no que é percebido como "normal": tudo vira um caos até que a ordem relativa ao novo se estruture e acomode a todos. Ao longo da história, isso ocorreu com várias inovações que quebraram antigos costumes: o rock, a ciência sobre a religião, seitas modernas, uma nova moda, um costume recente, etc.
Nenhum partido por si só representa a nação inteira.
A versão completa abarca a luz e a escuridão.
     Ora, se a consciência conservadora se desgasta, os aspectos sombrios ganham energia para novos arroubos. Podem se manifestar de maneira cada vez mais adaptada, com o tempo, obtendo o apoio de todo o "inconsciente", já que o representa, enquanto elemento sombrio. Se esse partido consegue assumir o eu consciente, conseguirá alguma inovação, na medida em que essa "assunção do eu" não for tão somente uma mera identificação. Quando me identifico com minha sombra, não penso no quanto estou diferente, mas excito-me com as novas atitudes que tomo, sem pensar nos valores tradicionais que me ocupavam outrora. É como se fosse tomado por uma paixão. Porém, infelizmente, esse fogo acaba um dia, e aí vou pensar no quanto fiz besteira em nome de uma chama provisória. Ao identificar-me com esses aspectos sombrios, não penso nas minhas outras partes. Estas já não me integram mais, só o novo. Porém, mal me dou conta de que nenhum elemento psíquico me pertence, mas sim à totalidade, que está muito além desse miserável e pequenino eu. Penso que foi mais ou menos isso que ocorreu com o PT.
     Ao se identificar - "Eu sou o governo", "Eu sou o povo", "Eu sou as instituições" - tomou mais do que pertencia a si. Pensou-se maior do que sua verdadeira medida. Inflacionou-se. Outro sintoma dessa inflação é a pretensão de atuar como ditadura, uma espécie de grande rigidez da consciência, uma intensa cisão psíquica, o que configurou, por exemplo, na intenção de censurar ou limitar a imprensa. O louvor do poder pelo poder acabou por degenerar em corrupção, já que não ocorreu uma distribuição equilibrada de recursos à consciência, aos instintos e arquétipos, mas sua usurpação pelo complexo-PT com que o eu-governo se identificou. Essa luta pelo poder parece ocultar uma espécie de medo de ser novamente relegado ao esquecimento, de ser desvalorizado e humilhado. Entretanto, o que ocorre com um balão inflado, com o tempo? Naturalmente, ele murcha até adotar a exata dimensão do seu ser real. Como partido que nunca teve o aval da psíquica nação, ao assumir, adotou posturas infantis e ações primitivas, inadequadas, ocorrência idêntica à inflação no contexto de um indivíduo. Alguns petistas, em um momento de lucidez, ousaram afirmar que, como nunca governou, "quem nunca comeu melado, quando come, se lambuza". E este é o ponto exato: não saber como se comportar adequadamente na direção da nação. Outros, delirados com o partido, não levam em consideração os demais, adotando um procedimento unilateral, tomando a parte pelo todo.
     Assim, não penso que o PT ou qualquer outro partido deva ser banido ou destruído, pura e simplesmente. Fazer isso é torná-lo mais sombrio, é mandá-lo de novo ao "inconsciente", de onde um dia há de voltar, talvez mais rude do que antes. Querendo ou não, ele representa parcela significativa do povo brasileiro, seus costumes, suas atitudes. Odiá-lo é, em uma perspectiva mais profunda, odiar a própria sombra que ora se projeta sobre o partido. Agora é momento de reflexão, de "baixar a bola" e se julgar com isenção, com mais maturidade, seja pelo PT, seja por cada cidadão brasileiro. O reconhecimento da culpa trará mais maturidade para que, mais adiante, quem sabe possa elevar-se novamente a uma posição dirigente, com menos presunção e mais equilíbrio. O maior mal da política é não saber administrar o poder, seu principal instrumento. Este deve servir ao povo, à nação, à totalidade, não a uma porção.
     RESSALVA: a comparação que faço aqui é aproximativa e limitada. A análise dos grupos e instituições não se estende aos indivíduos que os compõem. A associação dos conceitos psicológicos com partidos não tem fim depreciativo, pois quaisquer dos primeiros representam sempre figuras essenciais e muito importantes à psique coletiva.

(Leia mais a respeito: "Extinção ou renovação de valores?",

sexta-feira, 25 de março de 2016

Renascimento sensorial: um novo nome para uma antiga arte



     Gostaria, primeiro, de remeter o leitor à matéria do artigo "Renascimento sensorial - o novo Santo Graal da psicologia". Nela, em resumo, a pessoa é levada a aprender como prestar atenção nos sintomas corporais do seu transtorno de humor, durante um momento. Com isso, as emoções "negativas" passam, e o indivíduo pode retomar sua interação com as situações problemáticas sem respostas emocionais exacerbadas. Nas palavras de Pascale Senk, autora do texto:
Conseguir permanecer neste estado de “não-ação" do qual falam muitas tradições espirituais, especialmente as asiáticas como o budismo, o taoísmo e o zen. Tornar-se um observador dos grandes fluxos de energia que passam pelo corpo, sem se opor a eles. «O que Luc Nicon descobriu e formalizou na fórmula  do “renascimento sensorial” está hoje no cerne das terapias mais inovadoras do momento", avalia a Dra. Christine Barois. Terapias comportamentais e cognitivas, meditação da atenção plena, EMDR (EMDR: Eye Movement Desensitization and Reprocessing), terapia da aceitação, etc. 
Esses métodos também colocam muita ênfase no conceito de formação e fortalecimento da atenção. Quanto mais os praticarmos, mais fácil se tornará sua prática, e mais gratificantes os resultados.
     Portanto, a técnica não é nova, os iogues e budistas que o digam. Por outro lado, o processo e o resultado não é diferente do que ocorre ao cliente de um bom analista. Na análise, conduzida por profissional competente, o indivíduo é conduzido a questionar seus pensamentos, crenças e valores, é induzido a consultar os próprios sentimentos, sensações, ideias e criatividade acerca de seus problemas pessoais, ficando independente da opinião de outras pessoas, e aprendendo a gerir a própria vida. Com o tempo, o analisando fica "afiado" em analisar os diversos acontecimentos, uma vez que se submeteu à análise de sua própria personalidade, tornando-se muito mais objetivo - subentendendo-se aí o significado de "menos envolvido emocionalmente".


     Entretanto, nesses dias de valorização dos processos rápidos, certeiros e efêmeros, e de pouco dinheiro, "dar o bolo pronto", fornecer o "peixe", ao invés da vara de pescar, é mais lucrativo. É difícil encontrar alguém disposto a passar mais de um ano em análise, uma vez por semana, cinquenta minutos em um dia. Mas posso garantir que esse tempo mínimo que alguém pode dedicar a si mesmo por semana pode mudar uma vida inteira. É o melhor investimento que alguém pode fazer a si mesmo, porque vai reverberar em todas as situações da vida. O resultado? Muito mais espontaneidade e liberdade, energia de sobra para muitos outros projetos - e não para remoer toda espécie de fantasia - facilidade de análise, criatividade, dinamismo, etc.
     Mas não percebamos nesse uso frenético do tempo apenas malefícios. Uma vez nomeado, esse processo de "renascimento sensorial" pode ser aplicado com mais eficácia na psicoterapia dos consultórios, muito mais na modalidade "breve", para minorar o sofrimento do cliente com mais eficácia e agilidade. Sua intervenção pontual será sempre aconselhada. Tudo o que vem a somar é benéfico.

terça-feira, 9 de junho de 2015

Babadook: a imposição do luto (contém spoilers)

     "The Babadook" (2014) é um filme muito instrutivo psicologicamente e muito rico em símbolos. Se isso não bastasse, foi também considerado um ótimo filme de terror. "William Friedkin, diretor do clássico O Exorcista, classificou o título como a produção mais apavorante que já assistiu" (ROLLING STONE, 2015). Infelizmente, para quem não conhece um pouco de psicologia, seu sentido simbólico pode passar encoberto. Este pequeno texto busca cumprir esta finalidade.
Seis anos já se passaram desde a morte de seu marido, mas Amelia (Essie Davis) ainda não superou a trágica perda. Ela tem um filho pequeno, o rebelde Samuel (Noah Wiseman), e tem dificuldades para amá-lo. O garoto sonha diariamente com um monstro terrível e ao encontrar um livro chamado "The Babadook" reconhece imediatamente seu pesadelo. Certo de que Babadook deseja matá-lo, o menino começa a agir irracionalmente, para desespero de Amélia. (ADORO CINEMA, 2015)
     Babadook encarna o inconsciente de Amelia, que procura de todos os modos reprimir a lembrança do trágico acidente de carro em que o marido a levava para a maternidade para dar à luz a Samuel. Qualquer possível menção à lembrança do marido é evitada e/ou negada por Amelia, até mesmo chamar Sam de "garoto", o que o ex-marido fazia. Ela não supera os estágios iniciais do luto, a negação e a raiva (KUBLER-ROSS, 1996). Sam, por sua vez, sofre com a inadmissão da mãe, e passa a ter pesadelos e medos inexplicáveis, além de amedrontar parentes e colegas. Isso se deve a que a psique da criança, antes da puberdade, é dotada de um Eu apenas embrionário, ainda incapaz de afirmar sua personalidade. Contudo, somos tentados e considerá-las, muitas vezes, esquisitas, cabeçudas e difíceis de educar, como se tivessem vontade própria. Puro engano. Nesses casos deve-se examinar o ambiente doméstico e o relacionamento dos pais, nos quais encontramos, geralmente, as verdadeiras razões das dificuldades dos filhos. O comportamento perturbador das crianças é muito mais reflexo das influências incômodas e embaraçosas dos pais (JUNG, 1986).
     O filho passa à mãe o livro de Babadook, que tem mensagens como: "uma vez que você ver o que está embaixo, vai desejar estar morto" e "deixe-me entrar". Ora, o inconsciente normalmente é retratado como a parte da personalidade que vive "embaixo", isto é, abaixo do nível da consciência, como se fosse uma espécie de porão. E ela guarda as posses do falecido justo em um porão, as quais não deixa Sam ter acesso. Nas palavras deste, a mãe não o deixa ter um pai, mesmo que morto. Além disso, Amelia parece evitar também qualquer referência a sexo e ao amor compartilhado. Também parece perceber os gestos carinhosos do filho como sexuais, mesmo quando este está dormindo e recosta em seu corpo. Então afasta-se prontamente. Amelia sofre de insônia, e não é por acaso, pois precisa estar acordada e vigilante o tempo inteiro para evitar qualquer menção ou lembrança interna aos problemas que nega veementemente. Mas, como é muito comum nesses casos, ela não tem consciência nem de que nega esses assuntos. Não mencionar ou falar sobre o falecido é, para Amelia, seguir em frente com a vida. De fato, esse seria um bom indício de que conseguiu superar a morte do ente querido, se a menção a ele não a irritasse tanto. Quem supera uma perda e não a expõe, provavelmente o faz porque o fato já não possui a intensidade afetiva quanto tinha à época dos acontecimentos. Porém, para que isso ocorra, é necessário conviver com eles.
     Entretanto, assim que o filho começa a ser discriminado claramente na escola e pelos parentes, a situação se desestabiliza. Então Sam fica desobediente e agressivo. O livro de Babadook surge e fornece a ela um meio simbólico para expressar conteúdos do seu inconsciente, até então fortemente represados. O estado psíquico de Amelia, antes vigorosamente controlado, se desequilibra, em meio à instabilidade da iluminação e aos ruídos, ao que tudo indica autônomos, produzidos no ambiente. O episódio em que Sam empurra a prima da casa da árvore, quando esta expressava às claras o que sua mãe ocultava, denota seu tormento frente à situação psíquica insuportável. Ao tentar se justificar, e a mãe tentar controlá-lo, passa por uma convulsão. Samuel é medicado e, agora, só a mãe deverá lidar com sua repressão ao luto, às reais emoções que a perseguem, encarnados por Babadook.
... fechada à realidade interior
     O livro, depois de destruído, reaparece com outra frase: "Vou fazer uma aposta com você. Quanto mais negar, mais forte eu fico". Nesse ponto, o inconsciente de Amelia encontra-se muito carregado de energia psíquica. Manter os sentimentos e as emoções do luto separados do seu Eu serviu apenas para fornecer mais autonomia a eles, mais independência em relação às rédeas que quer firmar. "Você começa a mudar quando eu entro. O Babadook cresce sob a sua pele. Venha! Venha ver o que está embaixo!". O símbolo do senhor negro, de cartola, mostra que ela primeiro matará o cachorro, depois sufocará o filho, e por último suicidará. Babadook, a figura do falecido que a abraça e os insetos que a perseguem, é como se fossem a morte em pessoa que vem buscá-la por não admitir sua existência. Influências regressivas que a atraem para o que ela rejeita, e que ficam mais fortes com a aproximação do aniversário do sétimo ano do filho. Ele mostra que ela nutre sentimentos hostis em relação ao cão que fareja o porão, ao filho que confronta sua cegueira interna e a si mesma. Ele é o inconsciente que finalmente se apossa de sua personalidade para cometer atos impensáveis. Ao negarmos o que se encontra em nosso interior, o separamos de nós, provendo-o de vida independente de nossa vontade. Nós nos tornamos como uma casa à disposição de forças que agora nos são desconhecidas, porque não admitidas. E ao não reconhecê-las, corremos o risco de não perceber que passamos a atuar como elas, que nos tornamos exatamente o que antes não tolerávamos.
     Sam diz que não quer que a mãe vá embora porque, como as crianças estão em íntimo contato com o inconsciente, sabe que ela aos poucos está partindo para dar lugar à bruxa, à mãe má, que o colocará em perigo. Amelia só recobra a consciência para lutar contra a possessão sombria quando Samuel a acaricia enquanto tentava sufocá-lo. Ela vomita uma massa negra, cena muito semelhante à separação de Peter Park de Venon, em Homem Aranha 3, cuja analogia é muito pertinente. À negação segue a identificação (união), e, então, uma separação (análise) mais saudável. Ao alucinar a morte do marido torna-se possível vivenciar a angústia da perda. Por último, prevalece o instinto materno na batalha contra a força maligna, que agora aloja-se no porão. Curiosamente, quando a mãe surta, o filho volta ao comportamento natural.
     Amelia não se cura como, normalmente, se idealiza uma cura. Pode-se dizer que sua saúde mental é restabelecida na medida em que ela reconhece a realidade do que se encontra em seu interior. Também teve que contar com outra força inconsciente igualmente poderosa: o instinto ou amor materno. O inconsciente teve que gritar, urrar e se impor para ser notado e respeitado. Por isso, e para manter uma boa relação com seu inconsciente, ela deve servi-lo diariamente com um símbolo que representa a morte e, de certa forma, a primeira (e parece que última) vitória desta: vermes extraídos do jardim onde o cão está enterrado. Mãe e filho compartilham da percepção da fera negra, como se esta fosse uma realidade comum a ambos, agora aceita inteiramente, como algo interno que, vivenciado externamente, exige atenção e respeito. Não é permitido a Sam visitar a fera, mas apenas quando for adulto. É a mãe que deve se relacionar com ela, pois é um problema dela. Foi preciso que alucinasse, que saísse de sua realidade, para que atentasse ao avesso do mundo exterior, que muitas pessoas desprezam: o espaço interno.





REFERÊNCIAS

ADORO CINEMA. Disponível em: <http://www.adorocinema.com/filmes/filme-226493>. Acesso em: 7 jun. 2015. 

BABADOOK. Direção: Jennifer Kent. Produção: Jan Chapman. Intérpretes: Essie Davis, Noah Wiseman, Daniel Henshall, e outros. Roteiro: Jennifer Kent. Austrália: Causeway Films
Smoking Gun Productions, 2014. IMDb: 6,9.

JUNG, Carl Gustav. O desenvolvimento da personalidade. 5. ed. Petrópolis: Vozes, 1986, v. XVII.

KUBLER-ROSS, Elisabeth. Sobre a morte e o morrer: o que os doentes têm para ensinar a médicos, enfermeiras, religiosos e aos próprios parentes. 7. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1996.

ROLLING STONE. Disponível em: <http://rollingstone.uol.com.br/noticia/i-babadooki-entenda-como-uma-diretora-pouco-conhecida-fez-um-dos-filmes-mais-assustadores-em-anos>. Acesso em: 7 jun. 2015.

sábado, 18 de abril de 2015

O casamento na atualidade

    Há milênios o casamento era um negócio onde as mulheres eram compradas e vendidas. Na realeza e nas famílias muito ricas chegava a ser quase uma transação semelhante à do gado. Portanto, não era importante a psicologia do indivíduo: seus interesses, desejos, ideias, crenças, etc. Representava uma instituição coletiva, e assim também era o relacionamento conjugal. Formava a interação entre dois papéis sociais - o marido e a esposa, e o casal era valorizado na medida em que podia e sabia como sustentar essas personas ou máscaras (JUNG, 2014).
    Entretanto, com a evolução do pensamento e a aquisição de certa cultura, o indivíduo foi enfatizado: agora seus desejos e direitos são levados em consideração. A psicologia surgiu para entender o sujeito e, por extensão, a sociedade. Ela se tornou necessária para possibilitar a adaptação e o ajuste, muitas vezes fino, entre dois ou mais indivíduos, e destes consigo mesmos. Não tínhamos um relacionamento individual, mas coletivo, o que só mudou com o surgimento do amor romântico ou paixão (Ibidem).
    O grande problema atual é o embate sobre o que se espera que o casamento seja, enquanto instituição coletiva, adequada à sociedade, e o que desejamos dele: um relacionamento individual, muito difícil de se criar dentro do casamento. A convivência apenas ao nível da persona, dos papéis, não é suficiente. Deve haver uma relação individual, sem a qual não existe o ajuste ou adaptação individual. O marido e a esposa apenas cumprem seu papel respeitável e esperado, por meio de princípios muitas vezes estreitamente associados à religião. A direção do casamento, como instituição coletiva, e a de uma empresa, não difere muito, já que ambos são geridos por contratos, com papéis bem definidos. Porém, cada um dos cônjuges é uma pessoa particular, com o qual se deve ter um relacionamento particular (Ibidem).
    Na relação conjugal coletiva costuma imperar a identificação projetiva (ou participation mystique), isto é, cada um dos parceiros projeta no outro uma parte da sua personalidade e o vivencia como se fosse o conteúdo da projeção. Desse modo, cada um dispõe de um meio inconsciente para controlar o outro de acordo com o ponto de vista interno. Assim, um cria a condição do outro e conclui as decisões do outro, dependendo deste para se tornar o que é (SAMUELS, 2003). Após algum tempo de convivência, as pessoas se influenciam reciprocamente, um assimila o outro e ambos se tornam semelhantes. Ocorre que esta identidade e fusão é um grande obstáculo ao relacionamento individual. Pois, se são idênticos, não existe relacionamento, já que este só ocorre entre pessoas diferentes, isto é, separadas psiquicamente. Uma vez que essa identificação projetiva é a situação habitual no casamento, principalmente quando os cônjuges são jovens, uma relação individual é impossível (JUNG, 2014).
    Se ambos escondem segredos um do outro, admiti-los pode ajudar a estabelecer um relacionamento individual. Se não existem segredos, então nada pode protegê-los da participation mystique. Neste caso, nada demais ocorre no casamento, que fica sem tempero, sem emoção (Ibidem). 
    Portanto, ao que tudo indica, o relacionamento individual dentro do casamento depende da sinceridade de ambos os cônjuges. Sinceridade no sentido da revelação explícita, de um para o outro, de quem se é realmente, sem máscaras, sem segredos. O caso alegado acima, onde em um casamento não existe segredo parece partir do pressuposto de que o marido e a mulher não têm consciência de seus seres genuínos, autênticos. Por isso eles acabam por concluir que não possuem nenhuma confidência a fazer. No entanto, até a sinceridade extrema pode trabalhar para a ausência de diferenças, uma vez que não haveria qualquer reserva, podendo isso ocasionar um controle de um dos cônjuges sobre o outro. O confidente pode se ofender com a franqueza ingênua, usando a revelação contra o outro, criticando-o ou reclamando, se esforçando para que ele se encaixe dentro dos moldes da persona conjugal. Isso levaria o casamento ao patamar coletivo, da mesma forma como este pode entediar e levar à confissão individual. Por isso, a posição ideal é o trabalho da consciência individual, que procurará a adaptação ao momento vivido, com atenção, sem se desbancar para um dos extremos, pois estes se tornam hábitos e, por conseguinte, inconsciência do próprio comportamento.
    Parece-me que a insistência e a resistência ao casamento homossexual decorre desse mesmo embate entre casamento como instituição individual versus coletiva. Este serve à sociedade, à tradição, à persona; aquele, aos sujeitos tais quais são, com suas características e objetivos pessoais em primeiro plano. No âmbito da sociedade, podemos considerar essa oposição como um sintoma do que acontece ao nível da psique do indivíduo: o que era encoberto vem à tona, como ocorre a um segredo. Se esse segredo não é compartilhado e difundido, sem aberraçoes extremas, é claro, a convivência se torna monótona. O ser espontâneo, a verdade e o novo são reprimidos para que uma máscara possa encobri-los. Não existe vida nisso, mas sim uma dramatização, um fingimento - a morte em vida. A existência não se renova, mas definha no choro contido. Então os mesmos sintomas que assediam o indivíduo nessas mesmas condições, tomam conta da sociedade como um todo: homicídios (repressão), falta de educaçao (inconsciência), violência (depressão), insegurança, miséria (falta de criatividade), protestos (ansiedade), etc. Um projeta no outro e na massa a carência, o buraco interno. A coletividade em geral só estará em harmonia na medida em que seus indivíduos estejam mais ou menos centrados.
A psicologia do indivíduo corresponde à psicologia das nações. As nações fazem exatamente o que cada um faz individualmente; e do modo como o indivíduo age, a nação também agirá. Somente com a transformação da atitude do indivíduo é que começará a transformar-se a psicologia da nação. Até hoje, os grandes problemas da humanidade nunca foram resolvidos por decretos coletivos, mas somente pela renovação da atitude do indivíduo. (JUNG, 1987b, prefácio)




REFERÊNCIAS


JUNG, Carl G. Psicologia do inconsciente. 7. ed. Petrópolis: Vozes, 1987b. v. VII/1.
JUNG, Carl G. Seminários sobre análise de sonhos. Petrópolis: Vozes, 2014, p. 78-80.
SAMUELS, Andrew. Dicionário crítico de análise junguiana. Edição Eletrônica, 2003 Andrew Samuels/Rubedo. Disponível em: <http://www.rubedo.psc.br/dicjung/listaver.htm> Acesso em: 14 out. 2010, 22:49:00.

segunda-feira, 6 de abril de 2015

A fascinação pela tecnologia

O que leva o homem a se fascinar pela tecnologia? Por que ele se permite viciar por aparelhos como o smartphone ou players de jogos? O que há por trás desses produtos tecnológicos? São perguntas que compelem à reflexão, tendo em vista que qualquer um de nós pode ser assaltado lenta e silenciosamente por uma compulsão viciante sem se aperceber do fato.
Hórus, Osíris e Ísis, deuses egípcios.
Jung (2014, p. 510) diz que aqueles que adoram ídolos sabem que estes foram feitos pelo homem. No entanto, ainda assim são escolhidos como morada de Deus ou tornados sagrados, vasos da santidade. O mesmo ocorreria na construção de um aparelho, de uma máquina, pois ao fazê-lo se está conferindo um poder criativo e divino a ela. Pode parecer uma atividade mecânica, mas ela pode nos invadir de forma invisível. Agora, que poder divino é esse?
Os aparelhos e máquinas são instrumentos que nos possibilitam alcançar o inalcançável, estender nossos membros ao que antes era não atingível. Podemos fazer coisas que não faríamos só com nosso corpo. Por isso os aparelhos nos fascinam. O que antes era prerrogativa dos deuses, agora é nossa possibilidade. A tecnologia nos tornou deuses. Nos deu poderes que antes não tínhamos. Antes só deuses e pássaros podiam voar. Apenas os deuses deixavam a terra para habitar os confins dos céus. As invenções permitem que nós cheguemos aonde nenhum homem jamais foi. Nos permite atingir o infinitamente pequeno, assim como abarcar o imensamente grande, por enquanto apenas conseguindo dados… Só Deus sabe o que poderemos conseguir depois... Esse poder criativo confere poderes realmente celestiais às máquinas, sem os quais o homem ainda estaria confinado às cavernas, sua morada original. O centro da existência agora é o homem. Os deuses estão deixando de habitar ídolos para se encarnar nas invenções.
O homem não quer saber se está desvalorizando as próprias relações humanas. Permanece horas e horas contemplando e manipulando uma pequena “tabuinha” de metal e plástico, com a qual pode acessar outros humanos em qualquer outro lugar da Terra. O conhecimento se tornou disponível com um pequeno gesto. Um pequeno movimento pode comandar aparelhos, embora já haja estudos para possibilitar serem estes comandados por nossos próprios pensamentos. O sobrenatural está dando lugar à tecnologia, e esta a várias novas doenças psíquicas, como o vício em jogos, em smartphones, à Internet, por exemplo, sem falar nas psicossomaticas, ou nas doenças derivadas diretamente da debilitação do sistema imunológico.
No momento em que escrevo este texto, ele pode, a qualquer hora, ficar disponível para milhões de pessoas que quiserem ou puderem acessá-lo, bastando que digitem algumas palavras em um buscador. Compras podem ser feitas em outros países sem que saiamos do lugar. O banco pode ser acessado até mesmo à noite, fora do expediente, tornando possível que transfiramos valores ao outro lado do mundo! Podemos transmitir nossa imagem e voz instantaneamente ao outro, o que era obra de ficção científica há algum tempo.
Estamos nos tornando cada vez mais nossos próprios deuses, transferindo o sagrado para a tecnologia. Mas… a serviço de que? Qual a finalidade disso? O que fazemos com isso? São questões que não podemos deixar de tentar responder, pois corremos o risco de oprimir o outro, como já ocorreu por tantas vezes na humanidade. Tragédias ocorreram por conta desse poder criativo do homem, pela não atenção aos valores sentimentais. Não conseguimos pensar em mais nada a não ser no que nos compele a fazer, fazer e fazer, sem animação, sem senso crítico. Não usemos nossos sentimentos e nos tornaremos máquinas. 






REFERÊNCIAS

JUNG, Carl Gustav. Seminários sobre análise de sonhos. Petrópolis: Vozes, 2014.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

A solidão e o trabalho com o inconsciente

     A solidão pode ser classificada em física, mental e espiritual. A primeira consiste em simplesmente retirar-se para uma floresta ou lugar deserto e não contar com a presença de pessoas. A segunda, no fato de não se poder levar em conta a presença dos amigos e familiares no próprio ambiente, ou até mesmo um estranho, para compartilhar um sofrimento, uma dor pessoal. A pessoa sente-se sozinha. A solidão espiritual é normalmente buscada por pessoas que procuram uma espiritualidade mais elevada, tais como monges e eremitas. Interessante é que nas tradições de muitos povos constam vários procedimentos de cautela com relação a pessoas que ficaram isoladas durante algum tempo. Qual seria a razão? (VON FRANZ, 1985, p. 194).
     Ocorre que, no dia a dia, as pessoas usam sua energia (a libido) disponível em suas relações com o meio ambiente. Na solidão essa energia, uma vez não empregada, é represada internamente e ativa o inconsciente, reforçando-o. A solidão pode fazer com que o indivíduo tenha seu inconsciente ativado, o que pode ocasionar a possessão por forças nocivas, ou encontre uma realização interior maior. Entretanto, mesmo neste último caso, a tendência é que, de início, haja sempre uma espécie de “possessão pelo mal”. Os que procuravam a santidade no passado inicialmente eram atacados por “demônios”, já que a energia disponibilizada pela solidão ativa primeiro os complexos autônomos do inconsciente. Assim que estes são resolvidos os frutos da solidão passam a ser positivos. Isso fica bem explícito nos diversos contos e casos expostos por Marie Louise Von-Franz (1985, p. 194-195), donde foi extraída a maior parte do presente texto.
     A própria autora, motivada por Jung, descreve como fez um experimento consigo mesma, se fechando em uma cabana nas montanhas, na neve. Uma típica introvertida, de início Von Franz (1985, p. 195) se sentiu muito feliz, se ocupando o dia inteiro com a cozinha e com o que iria comer no dia seguinte, o que evitou seu maior contato com o inconsciente. Além disso, ela esquiava, ia uma vez ao dia a uma vila para comprar pão e leite e travar certo contato com as pessoas, o que anulava o efeito do isolamento. Ela então decidiu reforçá-lo: passou a ingerir comida enlatada para não ir à vila, deixou de esquiar e passou a cozinhar rapidamente comidas “sem graça”, como macarrão e algo assim, de modo a não gastar sua energia. O tempo começou a se arrastar  muito lentamente, e cada minuto se tornou uma eternidade. A situação foi piorando, mas ela aguentou.
Comecei a imaginar que assaltantes costumavam entrar em tais cabanas, principalmente prisioneiros fugitivos à procura de armas ou roupas civis, caso ainda estivessem com o uniforme listrado. Essa fantasia tomou conta de mim por completo e, sem perceber que era justamente isso o que procurava, fiquei tomada pelo pânico. Peguei o machado de cortar lenha, coloquei-o ao lado da cama e fiquei acordada, tentando decidir se teria coragem de golpear tal homem na cabeça, se ele aparecesse, e, assim, não consegui dormir. Aí tive que ir ao banheiro que ficava fora, na floresta coberta de neve, e no meio da noite vesti as calças de esqui e saí pelo escuro. De repente algo caiu atrás de mim, saí correndo, caí de cara na neve e voltei ofegante. Daí percebi que era apenas um pouco de neve que tinha caído de uma árvore, mas com o coração aos pulos e o machado ao lado da cama, não consegui dormir. Na manhã seguinte achei que bastava e que devia voltar para casa, […] (VON FRANZ, 1985, p. 196)
Marie Louise Von Franz
     Então, de repente, ela percebeu que esse era o efeito que estava procurando: o inconsciente tinha sido ativado com a energia em excesso, soltando seus demônios... Ela resolveu fazer imaginação ativa (o conceito encontra-se em Vocabulário) com o assaltante, uma interação com essa figura interior através da imaginação, e se sentiu completamente bem e segura. Toda vez que a figura surgia em sua imaginação, Von Franz interagia com ela e a paz voltava. Antes de praticar a imaginação ativa, ela estava a caminho de ser sutilmente possuída.
     Essa experiência a ensinou que a solidão dá vida ao que existe no inconsciente. E se o indivíduo não souber como lidar com esse material, este surgirá primeiro de forma projetada. No seu caso a projeção veio sob a forma da ideia de um criminoso. Mas se ela estivesse em uma civilização que ainda acreditasse em demônios, ela poderia ter pensado que o Curupira havia chegado, dando nome ao conteúdo inconsciente. A maioria das pessoas não é capaz de lidar com situações desse tipo por muito tempo, recorrendo à companhia de outras para se proteger.
     Entretanto, a solidão não apenas constela o mal no interior do indivíduo, como também exteriormente. Quando um indivíduo vive sozinho, distante de uma comunidade humana por muito tempo, as pessoas começam a projetar a sombra delas sobre ele. Mesmo durante viagens prolongadas, quando o laço de afeição e de sentimentos se afrouxa, as pessoas deixadas para trás podem começar a tecer teias das mais incríveis ideias negativas a respeito daquela que as deixou. Porém, quando o que se afastou volta, o contato e o calor humano do momento dissipam essas nuvens de projeção. Assim, quem vive sozinho atrai o mal de sua própria natureza, mas também atrai projeções. Por isso os solitários dão a impressão de serem estranhos e, se ocorre algo desagradável, normalmente se pensava que a culpa era deles. Em tempos antigos isso era muito mais frequente. O estranho era considerado errado e perigoso, trazendo uma atmosfera de doença, de morte e de transtorno nas relações humanas. Por isso era preciso se aproximar dele com várias precauções. Hoje em dia, o indivíduo volta à comunidade e argumenta, se defende ou explica o próprio comportamento, o que dissipa as “nuvens negras”. Mas quando não conseguem compreender alguém, as pessoas projetam seu próprio mal sobre elas (VON FRANZ, 1985, p. 199).
     Entretanto, a ativação do inconsciente não depende apenas do isolamento, seja ele físico, psicológico ou espiritual. Certos processos psicológicos podem ativá-lo, o que produz forte impacto na consciência, fazendo o indivíduo se sentir ameaçado ou, no mínimo, desorientado. Em casos mais graves, o inconsciente pode tomar o lugar da realidade, o que é patológico (JUNG, 1991a, §595).
     Nesse momento, valem algumas reflexões sobre as implicações dos fatos demonstrados até este ponto. Constatou-se que, quando o inconsciente é ativado pelo isolamento, este ocorre dependendo do grau de isolamento e de represamento da energia à disposição do eu. Entretanto, pode-se imaginar que o inconsciente pode ser mais ou menos intensamente ativado a depender do nível de energia que possui, isto é, se ele já possui uma atividade intensa, um isolamento brando ou por pequeno período poderá fazê-lo mais veemente com relativa facilidade. Isso explica porque as crianças, que já possuem um contato mais direto e vigoroso com o inconsciente, são assaltadas por medos despertados por fantasias, quando ficam por pouco tempo sozinhas. Explica também porque adolescentes e mesmo adultos são assaltados por medos inexplicáveis em determinadas épocas, insistindo em dormir com a luz acesa, principalmente sob isolamento. Nessa categoria de medos irracionais pode-se citar os medos de morte, de acidente, de fantasmas, de criminosos, de manifestações meteorológicas inofensivas, etc.
     Por outro lado, é interessante observar como os indivíduos deprimidos insistem, naturalmente, em permanecer solitários. Essa condição apenas faz aumentar os sentimentos de angústia, medo e tristeza intensos que compõem a depressão. A solidão como que amplifica os sintomas, talvez em uma tentativa de intensificá-los para se fazerem notar pelo sujeito, aumentando a consciência da situação interna. Aliás, muitos psicoterapeutas recorrem a técnicas de amplificação de sintomas com o fito de produzir insights curativos. O exemplo mais claro é Mindell (1989), que pede uma descrição pormenorizada do sintoma e procura produzi-lo no cliente com a manipulação corporal deste pelo terapeuta ou por si mesmo.
     Tudo na vida possui aspectos positivos e negativos, dependendo da situação, do contexto. Não é diferente com a solidão. Se o estado de alguém é desesperador, é terapêutico se buscar a companhia de outras pessoas, embora possa ainda haver exceções. Já se existe a necessidade de autoconhecimento e de mudança, um período mais ou menos longo de solidão pode fazer muito bem. O Zaratustra de Nietzsche (2010) pode fechar aqui com uma boa reflexão:
Solitário, tu segues o caminho que leva a ti próprio! E teu caminho passa diante de ti e de teus sete demônios.
Serás herege para ti mesmo, serás feiticeiro, adivinho, louco, incrédulo, ímpio e malvado.
É mister que queiras consumir-te em tua própria chama. Como renascerias, se ainda não te reduziste em cinzas?
Solitário, segues o caminho do criador: um deus queres criar de teus sete demônios!

sábado, 25 de outubro de 2014

Ser sincero, falar tudo, união e relacionamento

     Alguns parceiros acreditam que ser sincero, no âmbito do namoro ou do casamento, é falar tudo sobre nossos pensamentos, sentimentos, fantasias, sensações e emoções. Nada mais enganoso. A intenção aí parece ser a entrega total ao ser amado e que isso seja um símbolo da rendição a esse amor. Sim, intenção, porque o que passa a ocorrer é outra coisa.
     No momento em que alguém fala tudo sobre si para o outro, a pessoa não mais se responsabiliza pelos conteúdos que ocorrem em sua mente, já que o outro está a par de tudo. Dá-se ao outro a oportunidade e a chave para o controle da própria vida, e esta pode virar um inferno, pois quem quer ser totalmente controlado? Ao mesmo tempo, o outro se sente na responsabilidade de dominar a pessoa, pois esta lhe parece ingênua e irresponsável, o que é totalmente verdade, pois abriu mão de decidir o que dizer e não dizer ao parceiro. Esse controle pode transformar-se em um ciúme incontrolável, pois parte da premissa que alguém requer o nosso domínio, o que é ilusório. Ninguém pode controlar totalmente outra pessoa. E devido a essa verdade desafiar constantemente os dois lados, advém o ciúme, resultado de querer impor um controle impossível.
     Mas então não se pode ser sincero? A questão não é essa, mas o que pensamos a respeito da sinceridade. O que é ser sincero? Ser sincero é arcar com a própria responsabilidade sobre os conteúdos internos. É estar ciente de que, apesar de às vezes ocorrer algum pensamento ou sentimento infiel, sabe-se o que se quer, e que não se pode ter tudo. É ter a capacidade de decidir de acordo com a própria vontade e agir de acordo. Ser sincero com o outro é ser franco consigo mesmo, é se desafiar, é saber que existe um preço para tudo e pagar por ele. Ser sincero com o outro é não mentir para si mesmo, acima de tudo. Por outro lado, contar tudo se baseia no sentimento de que tudo é de graça, de que se está livre e se pode ser o que se é com o parceiro, de que todos os problemas estão resolvidos com “falar o que vier”. É voltar a ser criança, acreditando que não haverá maiores consequências. Já a sinceridade envolve muita maturidade.
     “Falar tudo” é querer se fundir, não estar separado e ser no outro. Não existe união, mas fusão. Na união ocorre a ligação entre duas personalidades diferentes; na fusão, uma junção baseada na ilusão de que as duas personalidades são iguais ou "almas gêmeas", por exemplo. Como a ilusão está em constante contradição com a realidade, os conflitos tenderão a ocorrer com frequência cada vez maior até que ocorra uma crise com a constatação das diferenças de cada parte, a grande decepção. Toda decepção se baseia em um engano com relação à imagem que se tem do parceiro. Na maior parte das vezes os parceiros projetam um no outro a expectativa do seu ideal de homem ou mulher, se recusando a corrigir a imagem que têm um do outro a partir dos vários indícios que se apresentam diariamente. Não corrigem essa imagem porque isso traria sofrimento, um ferimento e muitos conflitos ao relacionamento. Mas chega um ponto que um fato mostra claramente a contradição do que se esperava do outro e daquilo que ele realmente é. Vem a desilusão, o desengano, o grande desapontamento, a intensa contrariedade. A partir desse momento pode ocorrer uma separação definitiva, ou um reinício do relacionamento, desta vez baseado em premissas mais verdadeiras: a de que um é diferente do outro. Só o diferente pode se unir, pois quando se fala na união de duas pessoas, supõe-se que sejam diferentes, que há um encontro, pois então não seriam duas, mas uma só. Neste caso não haveria união, mas permanência da mesma condição anterior de inatividade e não de reunião.
     E o que fazer nesse caso, quando se chegou a uma crise, por exemplo, em um casamento, e se deseja uma “re-união”, agora baseada na realidade que são os dois cônjuges? A psicoterapia pode ser de grande ajuda. Ela ajudará cada lado a tomar consciência de si, a saber quem se é, como ocorreu o processo que findou na crise conjugal e como lidar com o “novo” parceiro. O casamento é então renovado, os cônjuges se sentem como se estivessem em um novo casamento, o que é totalmente verdade. A antiga fusão cedeu à união e os parceiros estarão mais bem preparados para enfrentar a vida juntos, sabendo que agora são dois, continuam sendo dois, mas em um.