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quarta-feira, 4 de maio de 2016

A sombra do Brasil: banir ou integrar?

     Consideremos a nação brasileira como um sujeito possuidor de uma psique. O governo, o poder executivo, seria o eu; as instituições que o apoiam, o legislativo e o judiciário, fariam parte de todo o complexo do eu, regulador dos processos conscientes dentro da personalidade nacional, e que, ainda assim, comporta também certas instâncias inconscientes. O povo brasileiro, com suas numerosas instituições, representaria o inconsciente coletivo. Os diversos partidos personificariam os vários complexos pessoais inconscientes, que podem ou não se tornar mais ou menos conhecidos e identificados ou integrados ao eu.
Uma transposição do esquema psíquico para a nação brasileira.
     Essas comparações podem parecer mecânicas e simplistas, talvez porque pensemos que as pessoas, animais e coisas materiais "lá fora", vistas e apalpadas, sejam muito diferentes dos elementos psíquicos, estes sim, dinâmicos e de aparência muito mais "orgânica". Talvez tenhamos essa impressão por não percebermos a teia invisível que conecta a tudo e a todos externa e internamente. Não nos damos conta do "efeito borboleta", de como a batida de asas de uma borboleta pode desencadear, em seus vínculos inicialmente sutis, estragos como a passagem de um tufão. Portanto, o que me acontece a partir de fora, neste momento, neste lugar, está profundamente conectado interiormente comigo, com a minha pessoa, minhas ações, meus pensamentos. O que faço reflete em meu país e vice-versa.
     Na medida em que um partido tradicional permanece no governo, uma atitude de longa data insiste em continuar. Nada muda. Os partidos e os rebeldes ao governo ficam no "inconsciente", fora do eu, e, por isso conservam-se infantis, primitivos e desvalorizados. Ao assumir o governo, podem expressar traços dessas características. Exemplos disso é o modo como o governo, apesar de haver revitalizado a condição dos mais pobres, tratou tudo isso: a corrupção, a pretensão de que se poderia esbanjar dinheiro em programas sociais sem um limite mais real - talvez por ser o governo - sem que houvesse consequências, acreditar que o Brasil não estava em crise, etc.
     Se alguma parte dos "poderes" do eu, devido à rigidez deste, também fica longo tempo reprimida, acaba por manter-se subdesenvolvida e ingênua. Na medida em que são violentamente reprimidos, acabam conspirando para tornarem-se novamente visíveis e considerados parte do todo. À medida que o tempo passa, o tradicional governo se desgasta, pois não pode oferecer nada novo, já que realiza o que sabe, mas que é, ainda assim, insuficiente para abranger e praticar justiça ao todo. Produzir algo diferente é adotar a perspectiva oposta, que é considerada inimiga ou diabólica. Aliás, o novo sempre é diabólico, já que sua implantação requer um rebuliço no que é percebido como "normal": tudo vira um caos até que a ordem relativa ao novo se estruture e acomode a todos. Ao longo da história, isso ocorreu com várias inovações que quebraram antigos costumes: o rock, a ciência sobre a religião, seitas modernas, uma nova moda, um costume recente, etc.
Nenhum partido por si só representa a nação inteira.
A versão completa abarca a luz e a escuridão.
     Ora, se a consciência conservadora se desgasta, os aspectos sombrios ganham energia para novos arroubos. Podem se manifestar de maneira cada vez mais adaptada, com o tempo, obtendo o apoio de todo o "inconsciente", já que o representa, enquanto elemento sombrio. Se esse partido consegue assumir o eu consciente, conseguirá alguma inovação, na medida em que essa "assunção do eu" não for tão somente uma mera identificação. Quando me identifico com minha sombra, não penso no quanto estou diferente, mas excito-me com as novas atitudes que tomo, sem pensar nos valores tradicionais que me ocupavam outrora. É como se fosse tomado por uma paixão. Porém, infelizmente, esse fogo acaba um dia, e aí vou pensar no quanto fiz besteira em nome de uma chama provisória. Ao identificar-me com esses aspectos sombrios, não penso nas minhas outras partes. Estas já não me integram mais, só o novo. Porém, mal me dou conta de que nenhum elemento psíquico me pertence, mas sim à totalidade, que está muito além desse miserável e pequenino eu. Penso que foi mais ou menos isso que ocorreu com o PT.
     Ao se identificar - "Eu sou o governo", "Eu sou o povo", "Eu sou as instituições" - tomou mais do que pertencia a si. Pensou-se maior do que sua verdadeira medida. Inflacionou-se. Outro sintoma dessa inflação é a pretensão de atuar como ditadura, uma espécie de grande rigidez da consciência, uma intensa cisão psíquica, o que configurou, por exemplo, na intenção de censurar ou limitar a imprensa. O louvor do poder pelo poder acabou por degenerar em corrupção, já que não ocorreu uma distribuição equilibrada de recursos à consciência, aos instintos e arquétipos, mas sua usurpação pelo complexo-PT com que o eu-governo se identificou. Essa luta pelo poder parece ocultar uma espécie de medo de ser novamente relegado ao esquecimento, de ser desvalorizado e humilhado. Entretanto, o que ocorre com um balão inflado, com o tempo? Naturalmente, ele murcha até adotar a exata dimensão do seu ser real. Como partido que nunca teve o aval da psíquica nação, ao assumir, adotou posturas infantis e ações primitivas, inadequadas, ocorrência idêntica à inflação no contexto de um indivíduo. Alguns petistas, em um momento de lucidez, ousaram afirmar que, como nunca governou, "quem nunca comeu melado, quando come, se lambuza". E este é o ponto exato: não saber como se comportar adequadamente na direção da nação. Outros, delirados com o partido, não levam em consideração os demais, adotando um procedimento unilateral, tomando a parte pelo todo.
     Assim, não penso que o PT ou qualquer outro partido deva ser banido ou destruído, pura e simplesmente. Fazer isso é torná-lo mais sombrio, é mandá-lo de novo ao "inconsciente", de onde um dia há de voltar, talvez mais rude do que antes. Querendo ou não, ele representa parcela significativa do povo brasileiro, seus costumes, suas atitudes. Odiá-lo é, em uma perspectiva mais profunda, odiar a própria sombra que ora se projeta sobre o partido. Agora é momento de reflexão, de "baixar a bola" e se julgar com isenção, com mais maturidade, seja pelo PT, seja por cada cidadão brasileiro. O reconhecimento da culpa trará mais maturidade para que, mais adiante, quem sabe possa elevar-se novamente a uma posição dirigente, com menos presunção e mais equilíbrio. O maior mal da política é não saber administrar o poder, seu principal instrumento. Este deve servir ao povo, à nação, à totalidade, não a uma porção.
     RESSALVA: a comparação que faço aqui é aproximativa e limitada. A análise dos grupos e instituições não se estende aos indivíduos que os compõem. A associação dos conceitos psicológicos com partidos não tem fim depreciativo, pois quaisquer dos primeiros representam sempre figuras essenciais e muito importantes à psique coletiva.

(Leia mais a respeito: "Extinção ou renovação de valores?",

domingo, 1 de maio de 2016

A crise e o espírito do tempo no Brasil de hoje

A seca que abateu o Brasil em 2015 pode ser interpretada psicologicamente como uma
grande cisão da psique coletiva brasileira; a tensão estava no ar, até que, com as chuvas,
os processos políticos e de justiça fluíram novamente.
     A crise brasileira atual não é somente econômica e política, também inclui a saúde (vide os surtos das doenças do aedes aegypti e da gripe H1N1), e durante todo o ano passado (e não sei se este ano ainda estamos muito estáveis) foi também energética e hídrica. Também é uma crise moral, se pensarmos na corrupção como endêmica à população brasileira. São tantos aspectos negativos nesta fase atual, comparados a fases muito boas anteriores, como às do governo FHC e Lula, que podemos questionar o que haveria por trás de todos esses acontecimentos. Talvez uma breve análise e síntese de ideias possa dar um sentido geral a esses infortúnios.
     Já notei há muito tempo, na minha vida pessoal, o quanto os fatos de certo período da nossa vida parecem permeados por uma certa qualidade geral, um tema que atravessa todos os episódios em um determinado tempo. Em uma fase de um ano e meio, por exemplo, a vida de um amigo foi traspassada pelo tema "mudança", de maneira tanto prazerosa quanto dolorosa: nascimento de um filho, promoção no trabalho, mudança por duas vezes de domicílio e a morte de vários parentes seus e de sua esposa (vide o texto "Morte, sonho e sincronicidade"). Por esses dias recebi a notificação de multa de uma infração cometida há mais de três anos (como se sabe, as infrações não notificadas até trinta dias são arquivadas); no mesmo dia respondi a alguém que cobrava, no trabalho, a atualização de um sistema até certa data; dois dias depois chegou outra cobrança, tema dos eventos como um todo. Coincidências? Não acredito.
     É como se nossa vida fosse permeada por uma espécie de "campo de sentido" ou simbólico que possui uma característica específica em certo período de tempo. Jung aludiu a esse fenômeno como se o tempo possuísse uma qualidade em momentos definidos. Daí ocorrer a possibilidade de os oráculos funcionarem se nossas perguntas a eles estiverem baseadas em nossas preocupações e emoções, já que estas e o "campo simbólico" parecem estar estreitamente relacionados. A antiga filosofia chinesa chamava a esse campo de Tao.
     "O Sentido [Tao] se obscurece, quando fixamos o olhar apenas em pequenos segmentos da existência", cita Jung (1991, §913) de uma obra chinesa. "Para nós, os detalhes são importantes em si mesmos; para a mente oriental, os detalhes juntos é que formam sempre o quadro global", continua. Portanto, essa percepção da "qualidade" do momento advém da atenção ao todo, de forma geral, e não aos detalhes. É uma compreensão intuitiva da realidade.
A atenção ao tempo de médio e longo
prazo tornou possível sua divisão em
estações e anos, por exemplo. 
    Esses "campos simbólicos", em nossa vida pessoal, tendem a tornar a ocorrer, aparentemente, até que integremos o seu conteúdo em nossas vidas. No âmbito nacional, o sentido dessa crise também tende a acontecer com a incorporação, à consciência coletiva, do que se encontra inconsciente e que está extraindo muitos recursos de nossa consciência social. A corrupção é uma espécie de "complexo" que precisa ser analisado coletivamente, o que já está ocorrendo, para que possamos, de uma vez por todas, percebê-lo, trazendo os recursos de volta às nossas mãos. É preciso que cada brasileiro conheça seu potencial para a corrupção, suas faltas cotidianas, e saiba dizer "não" às tentações, em benefício da coletividade, sabendo do prejuízo que essas perversões trazem a todos. 
     Essa perspectiva é abrangente e não foca a responsabilidade dos sujeitos, não lança luz sobre as responsabilidades individuais, mas permite um alcance do sentido maior desse caos que tomou conta do Brasil. Somos todos instrumentos dessa trama e drama que se impõe. A par desse sentido, podemos ter esperança de que futuramente alcançaremos um cume mais alto do que os escalados até agora. A vida é uma tensão entre polaridades opostas, entre ciclos de alegrias e tristezas, prosperidades e penúrias, passividade e atividade. Esse jogo tensional é tanto mais instável quanto mais frágil o suporte dos elementos integrantes.
     Infelizmente, esse complexo nacional inconsciente não pode, de uma só vez, ser integrado como um todo, já que isso é muito difícil. Provavelmente, apenas certos aspectos estão enfatizados neste momento, e outros o serão no futuro, em outro ciclo. Mas, com certeza, há um grande potencial por trás que poderá ser de proveito a todos. Entretanto, é preciso que as defesas contra a conscientização desse complexo - a estrutura legislativa que permite o aproveitamento dessa desmoralização - sejam também analisadas e desfeitas. E o que está sendo realizado para isso? Antes, é preciso que cada político se conheça um pouco mais, assim como nós mesmos, pois é o indivíduo que compõe o povo brasileiro.
Na superfície, uma estrutura aparentemente sólida; na realidade, ela é sustentada
 sobre o dorso de um grande complexo inconsciente, que pode naufragar toda a nação, se não integrado.

quinta-feira, 16 de abril de 2015

A ampliação da consciência humana

As quatro funções de orientação da consciência.
     Possuímos quatro funções para nos orientarmos no mundo: a sensação nos passa que existem objetos e pessoas ao nosso redor, assim como nos transfere as impressões internas dos sentidos (imagens, calor/frio, dor/prazer, etc.); o pensamento identifica esses objetos e pessoas para nós, assim como as citadas impressões internas, com o uso das ideias, do raciocínio; o sentimento possibilita avaliarmos esses elementos com relação ao grau de nosso desejo ou agrado; e a intuição nos fornece as variadas possibilidades desses elementos externos ou internos, assim como sua combinação para algum fim: no que resultarão, de onde vieram, etc. Ocorre que cada um de nós nos identificamos com uma dessas funções em grau maior ou menor, o que faz com que tenhamos pontos de vista diferentes sobre o mundo e nós mesmos, seja com base no interior ou exterior, assim como em uma dessas funções. Se nos identificamos com o pensamento, então vamos dar prioridade a nos relacionar com nós mesmos e com o mundo com base nas ideias, nas regras, no raciocínio e na lógica. Se o fazemos com a função sentimento, usaremos os sentimentos para isso, e assim por diante. Isso nos caracteriza como tipos psicológicos: seremos do tipo pensamento se tendemos a usar principalmente essa função, no mesmo raciocínio da última frase.
     No começo da civilização, o homem conseguiu desenvolver pela primeira vez uma função, tornando-a consciente, trazendo-a do inconsciente coletivo para utilizá-la para seus propósitos.  O momento em que ele pôde dizer que tinha um objetivo ou vontade de fazer mais e mais marcou o surgimento da separação dessa função do inconsciente. O mesmo ocorre com o indivíduo, em uma escala menor, desde o seu nascimento até a adolescência ou a vida adulta. Ele separa uma função específica como principal para lidar com os fatores externos e internos de sua vida. Entretanto, se o sujeito desenvolve apenas uma função, fica ciente de que pode fazer algo, mas estará sempre em uma condição psicológica muito desfavorável, pois ainda existem três outras funções no inconsciente - uma condição esmagadora. 
     Se adquire uma segunda função, torna-se mais completo, ganha mais equilíbrio e adquire uma espécie de consciência filosófica. Pode conseguir se conscientizar de que é um ser psicológico. Poderá dizer: "quero fazer isso OU aquilo"; ou então: "vejo o quão tolo isto é", se referindo a si mesmo. Com uma só função isso é impossível. A aquisição de duas funções funciona como um espelho, com o qual reflete os assuntos a que dá atenção. A mão esquerda pode julgar a direita, e então ele ganha um ponto de vista superior. A terceira função traz um segundo espelho. Ele diz: "Vejo esse cara aqui que vê aquele fulano, do qual percebo as ideias e que chega a uma conclusão errada". Com a quarta função haveria uma carga tremenda de consciência que possibilitaria o acompanhamento dos bastidores de si mesmo. É provável que haja um limite para se alcançar isso, mas pelo menos teoricamente existe essa possibilidade. 
     Um indivíduo que desenvolvesse as quatro funções seria fabulosamente superior às condições em que se situa, possuindo uma liberdade quase ilimitada, comparável à liberdade divina, já que Deus é a primeira e a última condição. À medida em que as funções são assimiladas, o que projetávamos de nosso inconsciente para o mundo é recolhido para dentro de nós mesmos, pois reconhecemos essas partes antes separadas de nós. Isso nos retira do homem inferior, fazendo-nos adquirir uma espécie de divindade. Quanto mais espelhos adquire, mais divino se torna, assim como mais inflado também, idêntico ao próximo espelho. Mais longe fica de sua sombra, de tudo o que é baixo e fraco, talvez sujo, que se encontra ainda banhado nas águas originais, coberto pelo lodo primitivo. Vamos para mais e mais longe de tudo isso com a aquisição progressiva de conhecimento. Então um fato peculiar acontece.
Quanto mais nós nos afastamos de nossas raízes, mais nos identificamos com os espelhos, mais ineficientes nos tornamos, porque o espelho não tem pés, não tem mãos. Ele é completa consciência, talvez, ainda sem efeito, exceto o efeito que nós podemos dar a ele. O que está dentro significa extremamente pouco. Eu posso dizer a uma pessoa que coisas são isso e aquilo, mas ela simplesmente não pode transformar em realidade, porque o discernimento conta pouco a não ser que lhe sejam dados mãos e pés. Quanto mais longe vamos, menos eficientes somos. (JUNG, 2014, p. 573)
     Essa condição de se viver cada vez mais no espelhamento provoca a nossa retirada da substância, o que quer que isso possa significar. Essa tremenda consciência nos mantém fora da existência, e não se saberia dizer se estamos vivos ou mortos. Porém, quando olhamos algo no espelho, percebemos que não o possuímos, pois podemos apenas pegar sua imagem, já que somos removidos delas. A realidade parece ser um tipo de ilusão. Existe aqui uma forte semelhança com o Nirvana oriental. 
     Talvez essa seja uma das bases da física quântica, pois com o desenvolvimento do pensamento, após a Revolução Francesa, a matéria tende a se tornar espírito. Pensamento é matéria e matéria é pensamento - não existe mais diferença. Todo o conceito de matéria está se dissolvendo em abstrações.
     Penso que, ao nível de civilização, ainda estamos longe de atingirmos o desenvolvimento psicológico esboçado aqui por Jung (2014). Entretanto, no estágio atual conseguimos alcançar como que uma espécie de simulação desse tipo de consciência ampliada por meio dos recursos de disponibilidade de informação e de tecnologia. Podemos nos "espelhar" em vários pontos do planeta, sem estarmos realmente lá, assim como muitas outras pessoas se espelham em nossos lares, no conforto dos nossos assentos. Podemos executar atos que antes demandavam muita energia, como pagamento de contas e compras, com um simples clique do mouse. Os lugares, pessoas, períodos de tempo e as coisas agora se espelham na tela à nossa frente, e esses reflexos influenciam a substância lá fora, ao contrário do efeito da assimilação das funções aludido acima. Estamos com o mesmo nível de consciência de nossos avós, mas com a vantagem de podermos estendê-la no espaço e no tempo, com uma carga de informação muito maior. Isso não parece ser bom nem mau, mas capaz de realizar uma homogeneidade de nível de conhecimento, de maneira a generalizá-lo, tornando-o disponível. As coisas e as pessoas estão se abstraindo no virtual e se dissolvendo nele sem que alcancemos uma consciência maior. Isso poderia ser mais desastroso não fosse a generalização do conhecimento. Espero que assim seja.


REFERÊNCIAS

JUNG, Carl G. Seminários sobre análise de sonhos. Petrópolis: Vozes, 2014. p. 567-577.
______. Tipos psicológicos. Petrópolis: Vozes, 1991.

domingo, 18 de janeiro de 2015

Radicalismo, terrorismo e Charlie Hebdo

     O que é "liberdade de expressão"? É a primeira pergunta a se fazer frente aos eventos terroristas ocorridos em 7 de janeiro na França. Segundo a  Wikipedia (em 18 de janeiro de 2015):
Liberdade de expressão é o direito de manifestar livremente opiniões, ideias e pensamentos, sem a prática de qualquer crime que possa pôr em causa o direito de outrem, sob pena de difundir crime em massa através da comunicação social como poder criminoso sob a capa de fé-pública, designadamente a injúria e a difamação em abuso de um poder. A liberdade de expressão privada é uma relação natural entre as partes e por isso não necessita de prevenção ou censura. Já a liberdade de expressão pública necessita de censura como único meio de garantir a liberdade dos cidadãos e a igualdade de tratamento, responsabilizando-se o Estado em representar a parte a atingir pois não existe outra possibilidade prática. É um conceito fundamental nas democracias modernas nas quais a censura não tem respaldo moral. [destaques do editor do blog]
Fig. 1 - Retratação do "Pai", do "Filho"
e do "Espírito Santo".
     O teor das publicações do jornal Charlie Hebdo pode ser acompanhado nas figuras que ladeiam este texto, juntamente com uma foto do atentado. Percebe-se claramente que os editores do jornal são ateus e não hesitam em recorrer até ao preconceito para conseguir valer suas próprias opiniões. A expressão na Fig. 1 é, obviamente, de porte totalmente oposto à atitude fanática para com símbolos sagrados. Sim, digo fanática porque não é necessário recorrer a uma sátira tão impetuosa para expressar repúdio a figuras sagradas. Se o fanatismo religioso choca, o fanatismo ateu que se opõe, também o faz.
     Como o próprio Papa disse, "matar em nome de Deus é uma aberração". Mas vamos tentar entender essa aberração. A Bíblia preconiza, assim como o Alcorão, que se deve amar a Deus sobre todas as coisas. Com "coisas" a escritura quer englobar também as pessoas, como o pai, a mãe, os irmãos, etc. Jung chama à imagem de Deus de "supremo valor", um "fator psíquico cheio de energia", e entende a religião como um fator de relação com esse "valor supremo". Ele também afirma que, se alguém não coloca Deus como supremo valor de sua vida, fatalmente colocará outro elemento no lugar. E pode-se dizer que os editores do citado jornal possuem como valor supremo algo bem diferente do que fazem as religiões em geral. Para se opor a uma força fanática religiosa, apenas outra força igual ou de maior intensidade, de valor oposto, obviamente. Como na representação da trindade na Fig. 1 ocorre uma relação sexual, percebe-se que o conteúdo é material. A matéria e o instinto parecem se postar como supremos agentes de oposição ao sagrado e - por que não? - aos valores familiares (pai e filho).
     Na Fig. 2, o profeta Maomé é retratado como ator de um filme pornô. De novo a associaçao de figuras sagradas com o sexo, dois elementos diametralmente opostos. A figura parece significar, para o jornal, o desejo do profeta de ser apreciado em aspectos instintivos, no afã de ridicularizar a admiração e/ou o respeito que o islamismo lhe presta.
     É necessário entender que, se no Brasil alguém fizer uma charge pública apresentando a mãe de alguém como atriz de um filme pornô, estará correndo o risco, no mínimo, de ser processado, se não ocorrer um gesto violento, o que não dizer de uma figura ou de um ser que está acima de todas as coisas? O jornal francês ridicularizou não uma imagem qualquer, mas um dos supremos valores do mundo muçulmano... E o Estado, ao invés de fazer o seu papel de recorrer à censura para garantir a "liberdade e a igualdade de tratamento" de grupos minoritários para evitar confrontos, não o fez. Pelo contrário, entendendo-se "laico" [Aurélio: "2. Que vive no, ou é próprio do mundo, do século; secular (por oposição a eclesiástico)"], entende o mundo como excludente de religião. Se o Estado não pode incluir a religião, então que não seja laico, mas abrangente, continente, totalizante, uma vez que pretende abarcar e proteger o direito de todos os cidadãos. Nesse sentido, o Estado está mais avançado no Brasil do que na França...
Fig. 2: "O filme que abarca o mundo
muçulmano". Retrata Maomé dizen-
do: "E minha bunda? Ama minha
bunda?".
    Pode-se reportar à tipologia psicológica para se compreender ainda mais a posição de Charlie Hebdo. Sua crítica possui forte nuance de repressão do sentimento, função essencial para se diferenciar a adequação das próprias palavras e ações em relação a si mesmo e ao mundo. Apresentar ideias ou colocá-las em prática sem consultar os próprios sentimentos, sem perguntar "como me sinto a respeito?", dá ensejo a situações irresponsáveis, inadequadas e impróprias para si e para os outros. A liberdade sem sentimento, sem a devida delimitação da empatia, do se colocar no lugar do outro, é a liberdade que não leva em conta o mundo. É libertinagem.
     O objetivo das considerações anteriores foi equilibrar a atitude que se tomou comumente, no âmbito mundial, a favor do jornal francês. Os radicalistas muçulmanos atuaram de maneira totalmente criminosa e patológica (do ponto de vista ocidental) na resposta que forneceu ao Charlie Hebdo: nisso não há dúvida.
     O maior problema de radicalistas religiosos, e aqui pode-se incluir membros de todas as religiões, é a literalidade com que percebem as sagradas escrituras. Os psicólogos estudiosos dos sonhos sabem como os conteúdos destes, das visões e das fantasias da imaginação podem ser interpretados simbolicamente, com grande ganho para a saúde psicológica do cliente. Em geral, os sonhos falam da vida interior do sonhador, assim como também existem sonhos que dizem respeito à humanidade como um todo, e ao que se passa em seu interior, isto é, no seu inconsciente, chamado de inconsciente coletivo, e aos eventos exteriores. Comumente, é possível se interpretar simbolicamente a maioria dos eventos bíblicos revelados por meio de sonhos e visões, e existem vários livros a respeito. Essa possibilidade não quer dizer que esses acontecimentos se reduzem a simples contos ou mentiras. Não: querem dizer que sua verdade diz respeito ao lado espiritual e interior de cada um, que Deus não está somente fora de nós, e que ele pode ser experimentado direta e simbolicamente pelo fiel. A experiência espiritual interna evita qualquer tipo de fanatismos, pois se compara a um tom de voz moderado, ao passo que o radicalismo equivale ao grito. Acho que foi Jung que disse que só a dúvida grita, isso porque na certeza jaz a completa segurança sobre seu conteúdo.
Fig. 3 - Os terroristas em ação.
     Portanto, o fanatismo que fere, mata e destrói possui pelo menos dois aspectos negativos: quer materializar o que é espiritual, concretizar o imponderável e intocável, tornando-o suscetível a quaisquer ameaças externas; e parece basear-se em uma dúvida reclamada erroneamente como fé, esta que, por definição, constitui a certeza de coisas imponderáveis, daí a forte afirmação desenfreada e violenta do seu objeto contra tudo o que o negue.
     É muito difícil para muitas pessoas postar-se no meio de dois lados, tomar uma atitude considerada normalmente "ambivalente". Mas isso é típico do humano: ou um lado ou o outro, senão se é amigo ou inimigo. Os que são capazes de atitudes ambivalentes assim são mais aptos a gerenciar mais conflitos dentro de si e, por isso mesmo, tomarem decisões mais coerentes e conscientes, além de tolerantes. Deus e Maomé, existindo além do nosso pequeno mundo, mesmo que literalmente, permanecerão incorruptíveis, como sempre foram, muito além de atitudes deploráveis como as que ocorreram, seja para negá-los ou asseverá-los.

(Leia mais a respeito: "A verdadeira atitude científica")

domingo, 28 de dezembro de 2014

Extinção ou renovação de valores?

     Ouve-se tanto falar em quebra ou destruição de valores e extinção de instituições – entre elas, a família, considerada por muitos uma das mais importantes. Mas será que tudo isso não é parte de um processo maior de renovação de valores e de instituições? Renovação porque, a princípio, tudo o que termina e é extinto, deve ou pode ser suplantado por outros processos ou estruturas. É claro que o curso dessas mudanças normalmente é muito doloroso, mas é justamente como ocorre em nossas próprias vidas. É uma reflexão apropriada para este final de ano.
     Eliade (2010, p. 105-107) relata uma crise no Egito de 2.200 a 2.050 a.C. que o sacudiu com uma grave guerra civil, a divisão em dois reinos e o desmoronamento do Estado. Ao final da crise houve um verdadeiro renascimento. Invoco esse acontecimento remoto para lembrar como esses processos ocorrem desde sempre. A residência real foi ameaçada de ser demolida, os túmulos das pirâmides foram pilhados, as províncias e os templos já não pagavam impostos... Com o vandalismo, destruía-se os túmulos dos ancestrais e se transportava as pedras para os próprios túmulos. Inúmeros mortos eram sepultados no rio. O faraó não era mais o “filho de Deus”.
     Um texto comovente da época, “O debate sobre o suicídio”, é um diálogo entre um homem atormentado pelo desespero e sua alma (bâ). “A quem eu falaria hoje? Os irmãos são maus, os companheiros de ontem não se amam. … Os corações são ávidos: cada qual deseja os bens do seu vizinho. … Já não existem justos. O país está abandonado aos que cultivam iniquidades. … O pecado que paira sobre a Terra não tem fim.” Mirce Eliade alega que textos como esse representavam mais que testemunhos de uma grande crise: ilustravam  a tendência do espírito religioso egípcio de ampliar-se, de conceder importância à “pessoa humana como réplica virtual do modelo exemplar, a pessoa do faraó” (ELIADE, 2010, p. 107). Por fim, após muito tempo, o faraó perdeu seu poder para que houvesse a concessão de relativa autoridade a cada indivíduo em particular. O que houve no Egito reflete um processo que ocorre até hoje: a marcha das mudanças, a renovação da vida que carrega consigo a “morte” de valores tradicionais. O que não dizer das variadas denúncias de corrupção que ocorrem hoje no Brasil, além da crise de valores que impera no mundo todo?
     A psicologia pode ter uma resposta para essas questões.

As pessoas não percebem que as nossas ideias gerais, nossas teorias gerais, são baseadas em princípios que já não estão mais vivos; pois elas não são ideias modernas. Muitas pessoas estão começando a lutar contra nossas instituições, porque eles não podem mais acreditar nos princípios por eles defendidos, por isso surgem os estados de agitação em toda a parte. Nossa moralidade é ainda baseada em suposições medievais. Gostaríamos de admitir que não acreditamos mais no fogo do inferno, mas o fato é que não temos outra base para a nossa moralidade, exceto a ideia do fogo do inferno. (JUNG, 2014, p. 194)
     Jung afirmou isso em 1929, mas sua constatação ainda é válida há mais de 80 anos!
     Por outro lado, o mesmo autor afirma que a palavra moral não possui um significado definitivo, já que é relativa. Em certas sociedades, por exemplo, era moral sacrificar crianças, torturar, comprar e vender escravos. Embora a associemos à ideia do bem e do mal, deve-se ter em mente que ela tem um significado relativo e não absoluto (JUNG, 2014, p. 195).
     Acontece que os símbolos religiosos que imperavam algum tempo atrás perderam sua energia. Já não estão vivos na psique da maioria das pessoas. O “Céu” e o “Inferno” medievais já não convencem. E aqui no Brasil o investimento simbólico na autoridade está se esgotando rapidamente, como já ocorreu em muitos outros países. Tende-se a compreendê-la como uma servidora do povo e não o contrário. Infelizmente, devemos ficar na expectativa de assistir ao nascimento do próximo símbolo que mobilizará as pessoas nesse novo tempo. Talvez isso ocorra ainda em muitas décadas, mas é certo que acontecerá como sucedeu em muitas outras épocas e povos. 



Referências
ELIADE, Mircea. História das crenças e das ideias religiosas: da idade da pedra aos mistérios de Eleusis. Rio de Janeiro: Zahar, 2010. vol. I.
JUNG, Carl Gustav. Seminários sobre análise de sonhos. Petrópolis: Vozes, 2014.

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Cinema ou instituição para tratar a psique coletiva


O teatro como "instituição para
tratamento público de complexos"
     Jung (1989, §48) chamou o teatro de “instituição para o tratamento público de complexos”. Ele explicou que o prazer que se sente com a comédia, com uma história dramática com final feliz ou com uma tragédia se deve à identificação de complexos pessoais com os da peça. Com relação à tragédia, tem-se a sensação terrível e benéfica de se presenciar a ocorrência com o outro daquilo que nos ameaça. Essa identificação também ocorre com outras produções como o cinema e a novela. Essa identificação pode chegar a tal ponto que fortes complexos podem ser trabalhados em psicoterapia, por meio de filmes especialmente indicados para tal. E já se criou até um nome para uma espécie de terapia que usa enfaticamente as produções cinematográficas: a “cinematerapia”.
     Um filme pode aludir a possíveis soluções de problemas psíquicos e pode também questionar preconceitos, pontos de vista e convicções fortemente arraigadas. Os filmes podem falar poeticamente à alma e ao inconsciente, sem que o cliente tenha noção inteiramente consciente do que está sendo tratado, abreviando a terapia, sobretudo devido à amplificação de temas já tratados ou ainda por se discutir nas sessões. Uma novela ou filme que toca um complexo pode ter um efeito particularmente intenso no espectador, de forma a produzir emoções nomeadas popularmente de “positivas” ou “negativas”, cujas ocorrências associadas podem ser analisadas em terapia.
"Star Wars" foi escrito com base em
conceitos como o "inconsciente coletivo"
     Ora, os filmes que afetam positiva ou negativamente uma pessoa, de forma mais ou menos intensa, como já exposto, o fazem porque representam aspectos que possuem fortes conexões com seus complexos, ensejando sua identificação com personagens e situações. Se um certo filme impressiona muitas pessoas, isso se deve ao fato de ele refletir os complexos dessas pessoas, desde pequenos grupos, até nações inteiras. Assim, complexos coletivos, pertencentes a vários países, podem ser ativados por determinados filmes, mobilizando as massas, como ocorreu com produções como “Guerra nas estrelas”, “O senhor dos anéis”, “Avatar”, “Titanic”, etc. A análise dos filmes de maior bilheteria, que devem seu sucesso principalmente ao seu roteiro e à elaboração dos personagens, pode fornecer um diagnóstico mais ou menos preciso dos complexos mais mobilizados no inconsciente coletivo à época de seu lançamento. A energia psíquica está atrelada a esses complexos, e esse diagnóstico pode explicitar facilmente o caminho que ela está tomando e, pelo menos teoricamente, pode tornar claro para qual meta está se desenvolvendo, assim como os obstáculos desse destino. 
     O homem possui hoje em dia meios para prever coletivamente seu comportamento, assim como recursos para tratamento em massa das pessoas. Esses expedientes podem ser usados com maestria para um verdadeiro salto evolutivo de consciência, o que vem sucedendo sofregamente, ao contrário do que ocorre com o desenvolvimento tecnológico. Infelizmente, percebe-se, por meio de diversas leituras, que a humanidade se encontra em um estágio evolutivo de consciência, no sentido de uma integração maior à totalidade psíquica, semelhante à que havia há mais ou menos 2000 anos. Apenas um “verniz tecnológico” parece encobrir o estágio precário do inconsciente coletivo, fornecendo a aparência altamente civilizada que parece iludir a todos. Infelizmente o homem parece estar se desfazendo cada vez mais da linguagem simbólica, que poderia aproximá-lo o suficiente dos instintos vitais para que retornasse aos rumos de um verdadeiro crescimento psicológico saudável. A maioria dos filmes parece indicar esses caminhos: basta atentar a eles.
A comoção por combates corpo a corpo é semelhante
 à que havia por duelos romanos há 2000 anos
Referências
JUNG, Carl Gustav. Símbolos da transformação. Petrópolis: Vozes, 1989. v. V.

Leia mais a respeito:
"Alice no inconsciente coletivo" - 1ª Parte - 2ª Parte