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domingo, 18 de janeiro de 2015

Radicalismo, terrorismo e Charlie Hebdo

     O que é "liberdade de expressão"? É a primeira pergunta a se fazer frente aos eventos terroristas ocorridos em 7 de janeiro na França. Segundo a  Wikipedia (em 18 de janeiro de 2015):
Liberdade de expressão é o direito de manifestar livremente opiniões, ideias e pensamentos, sem a prática de qualquer crime que possa pôr em causa o direito de outrem, sob pena de difundir crime em massa através da comunicação social como poder criminoso sob a capa de fé-pública, designadamente a injúria e a difamação em abuso de um poder. A liberdade de expressão privada é uma relação natural entre as partes e por isso não necessita de prevenção ou censura. Já a liberdade de expressão pública necessita de censura como único meio de garantir a liberdade dos cidadãos e a igualdade de tratamento, responsabilizando-se o Estado em representar a parte a atingir pois não existe outra possibilidade prática. É um conceito fundamental nas democracias modernas nas quais a censura não tem respaldo moral. [destaques do editor do blog]
Fig. 1 - Retratação do "Pai", do "Filho"
e do "Espírito Santo".
     O teor das publicações do jornal Charlie Hebdo pode ser acompanhado nas figuras que ladeiam este texto, juntamente com uma foto do atentado. Percebe-se claramente que os editores do jornal são ateus e não hesitam em recorrer até ao preconceito para conseguir valer suas próprias opiniões. A expressão na Fig. 1 é, obviamente, de porte totalmente oposto à atitude fanática para com símbolos sagrados. Sim, digo fanática porque não é necessário recorrer a uma sátira tão impetuosa para expressar repúdio a figuras sagradas. Se o fanatismo religioso choca, o fanatismo ateu que se opõe, também o faz.
     Como o próprio Papa disse, "matar em nome de Deus é uma aberração". Mas vamos tentar entender essa aberração. A Bíblia preconiza, assim como o Alcorão, que se deve amar a Deus sobre todas as coisas. Com "coisas" a escritura quer englobar também as pessoas, como o pai, a mãe, os irmãos, etc. Jung chama à imagem de Deus de "supremo valor", um "fator psíquico cheio de energia", e entende a religião como um fator de relação com esse "valor supremo". Ele também afirma que, se alguém não coloca Deus como supremo valor de sua vida, fatalmente colocará outro elemento no lugar. E pode-se dizer que os editores do citado jornal possuem como valor supremo algo bem diferente do que fazem as religiões em geral. Para se opor a uma força fanática religiosa, apenas outra força igual ou de maior intensidade, de valor oposto, obviamente. Como na representação da trindade na Fig. 1 ocorre uma relação sexual, percebe-se que o conteúdo é material. A matéria e o instinto parecem se postar como supremos agentes de oposição ao sagrado e - por que não? - aos valores familiares (pai e filho).
     Na Fig. 2, o profeta Maomé é retratado como ator de um filme pornô. De novo a associaçao de figuras sagradas com o sexo, dois elementos diametralmente opostos. A figura parece significar, para o jornal, o desejo do profeta de ser apreciado em aspectos instintivos, no afã de ridicularizar a admiração e/ou o respeito que o islamismo lhe presta.
     É necessário entender que, se no Brasil alguém fizer uma charge pública apresentando a mãe de alguém como atriz de um filme pornô, estará correndo o risco, no mínimo, de ser processado, se não ocorrer um gesto violento, o que não dizer de uma figura ou de um ser que está acima de todas as coisas? O jornal francês ridicularizou não uma imagem qualquer, mas um dos supremos valores do mundo muçulmano... E o Estado, ao invés de fazer o seu papel de recorrer à censura para garantir a "liberdade e a igualdade de tratamento" de grupos minoritários para evitar confrontos, não o fez. Pelo contrário, entendendo-se "laico" [Aurélio: "2. Que vive no, ou é próprio do mundo, do século; secular (por oposição a eclesiástico)"], entende o mundo como excludente de religião. Se o Estado não pode incluir a religião, então que não seja laico, mas abrangente, continente, totalizante, uma vez que pretende abarcar e proteger o direito de todos os cidadãos. Nesse sentido, o Estado está mais avançado no Brasil do que na França...
Fig. 2: "O filme que abarca o mundo
muçulmano". Retrata Maomé dizen-
do: "E minha bunda? Ama minha
bunda?".
    Pode-se reportar à tipologia psicológica para se compreender ainda mais a posição de Charlie Hebdo. Sua crítica possui forte nuance de repressão do sentimento, função essencial para se diferenciar a adequação das próprias palavras e ações em relação a si mesmo e ao mundo. Apresentar ideias ou colocá-las em prática sem consultar os próprios sentimentos, sem perguntar "como me sinto a respeito?", dá ensejo a situações irresponsáveis, inadequadas e impróprias para si e para os outros. A liberdade sem sentimento, sem a devida delimitação da empatia, do se colocar no lugar do outro, é a liberdade que não leva em conta o mundo. É libertinagem.
     O objetivo das considerações anteriores foi equilibrar a atitude que se tomou comumente, no âmbito mundial, a favor do jornal francês. Os radicalistas muçulmanos atuaram de maneira totalmente criminosa e patológica (do ponto de vista ocidental) na resposta que forneceu ao Charlie Hebdo: nisso não há dúvida.
     O maior problema de radicalistas religiosos, e aqui pode-se incluir membros de todas as religiões, é a literalidade com que percebem as sagradas escrituras. Os psicólogos estudiosos dos sonhos sabem como os conteúdos destes, das visões e das fantasias da imaginação podem ser interpretados simbolicamente, com grande ganho para a saúde psicológica do cliente. Em geral, os sonhos falam da vida interior do sonhador, assim como também existem sonhos que dizem respeito à humanidade como um todo, e ao que se passa em seu interior, isto é, no seu inconsciente, chamado de inconsciente coletivo, e aos eventos exteriores. Comumente, é possível se interpretar simbolicamente a maioria dos eventos bíblicos revelados por meio de sonhos e visões, e existem vários livros a respeito. Essa possibilidade não quer dizer que esses acontecimentos se reduzem a simples contos ou mentiras. Não: querem dizer que sua verdade diz respeito ao lado espiritual e interior de cada um, que Deus não está somente fora de nós, e que ele pode ser experimentado direta e simbolicamente pelo fiel. A experiência espiritual interna evita qualquer tipo de fanatismos, pois se compara a um tom de voz moderado, ao passo que o radicalismo equivale ao grito. Acho que foi Jung que disse que só a dúvida grita, isso porque na certeza jaz a completa segurança sobre seu conteúdo.
Fig. 3 - Os terroristas em ação.
     Portanto, o fanatismo que fere, mata e destrói possui pelo menos dois aspectos negativos: quer materializar o que é espiritual, concretizar o imponderável e intocável, tornando-o suscetível a quaisquer ameaças externas; e parece basear-se em uma dúvida reclamada erroneamente como fé, esta que, por definição, constitui a certeza de coisas imponderáveis, daí a forte afirmação desenfreada e violenta do seu objeto contra tudo o que o negue.
     É muito difícil para muitas pessoas postar-se no meio de dois lados, tomar uma atitude considerada normalmente "ambivalente". Mas isso é típico do humano: ou um lado ou o outro, senão se é amigo ou inimigo. Os que são capazes de atitudes ambivalentes assim são mais aptos a gerenciar mais conflitos dentro de si e, por isso mesmo, tomarem decisões mais coerentes e conscientes, além de tolerantes. Deus e Maomé, existindo além do nosso pequeno mundo, mesmo que literalmente, permanecerão incorruptíveis, como sempre foram, muito além de atitudes deploráveis como as que ocorreram, seja para negá-los ou asseverá-los.

(Leia mais a respeito: "A verdadeira atitude científica")

domingo, 10 de agosto de 2014

Planeta dos Macacos: os animais!

Malcolm e Cesar
     Várias apreciações do filme “Planeta dos Macacos: o Confronto” apontam que o filme aborda várias questões, desde o preconceito até considerações políticas. Penso que o principal tema do filme é de cunho ecológico em associação ao preconceito.
     Existem dois ou três momentos no filme em que Dreyfus, o líder dos humanos, justifica a matança dos macacos como forma de privilegiar a sobrevivência da raça humana. Mais de uma vez ele afirma: “Eles são animais!”. Sim, mas este um argumento suficiente? O desenrolar do filme demonstra que não. O preconceito aí já está bem explícito, não necessitando de maiores comentários. No entanto, o que dizer do preconceito que valoriza os animais porque estes falam? No filme, o espanto maior, inclusive de toda a população de humanos, é com relação à capacidade de articular palavras. Isso não seria mais admirável do que um papagaio fazê-lo, se os macacos também não raciocinassem, contextualizassem sua fala e demonstrassem, além de tudo, consciência de si. Um animal consciente  continua sendo um animal? Ora, o homem é um “animal racional”, e como tal se isola de todos os outros, rotulados como irracionais. Estranho, porém, é a expressão atribuída aos homens, que destaca, excepcionalmente, a razão. Por que não chamá-lo de “animal consciente”? Afinal, ele é o único que possui um intelecto plenamente desenvolvido: ele pensa. E é esse pensar que torna possível ao homem, segundo Descartes, tomar conhecimento de sua existência. O intelecto, permite definir e conceituar objetos e pessoas, tornando possível definir-se, agregando muito mais consciência, ou autoconsciência. Já no sentimento, por exemplo, talvez o homem não se diferencie muito mais de certas espécies de animais...
Dreyfus
     Marcante também é o momento em que o macaco Koba lembra a Cesar o que este alegou quando brigaram anteriormente: “macaco não mata macaco”, com o fito de perdoá-lo. O líder dos macacos então afirma que Koba não é macaco, e solta-o para a morte. Cesar se refere à crueldade do ex-amigo, que o trai e comete vários crimes contra os companheiros, e não é mais digno de ser considerado um “macaco”, no sentido de não ser um símio íntegro. Os homens também costumam usar a mesma expressão para com os semelhantes genocidas, por exemplo. Na verdade, quando se usa expressões como “fulano é um monstro” ou “ele não é um ser humano” se está querendo dizer que a pessoa em questão entra em choque com os outros seres. É como se ela se opusesse à existência e à expressão de outros sujeitos. Logo, é lógico que estes queiram excluir a pessoa em foco da categoria que designa todos os seres abarcados. Assim, o psicopata cruel, que objetiva apenas o poder em detrimento da existência e da liberdade dos outros, seria um ser à parte, e não mereceria uma segunda chance, o mérito da confiança. É claro que essa atitude não corresponde a uma postura íntegra, abrangente e compreensiva em relação a todos os aspectos da existência. Esse pensamento é a base da pena de morte. Basta, então, assegurar que macacos ou humanos como Koba tenham sua liberdade restringida para que não possam mais agir em detrimento dos demais. Mas Cesar não tinha alternativa, pois a qualquer momento o ex-amigo poderia montar outra armadilha fatal para si, sua família ou sua tribo. Prendê-lo seria se comportar como os humanos que os aprisionavam em jaulas, e esse procedimento os macacos aparentemente rejeitavam. Cesar agiu bem, como líder sábio, bom avaliador dos prós e dos contras, a balança do sentimento.
Koba
     Um aspecto estranho no filme, assim como nas primeiras versões, é ver os seres humanos aprisionados pelos macacos. É uma inversão impressionante! Aí os humanos tomaram o lugar dos animais. Suponho que compartilho essa sensação de estranheza com muitos outros espectadores. Seria ela causada pelo costume de ver os animais presos? Ou de vê-los suscetíveis de maus tratos? Ou será que ver o nosso lado animal simbolizado no filme nos causa um certo desconforto em perceber como podemos ter nosso lado “racional”, ou quem sabe “humano”, submetido a fatores psíquicos mantidos fortemente “sob rédea”. Pode ser que cada um desses argumentos tenha seu papel nesse assombro.
     O segundo filme do Planeta dos Macacos consegue prender a atenção do começo ao fim. Desde o primeiro, nos acostumamos a ser conduzidos paulatinamente à conclusão. Tudo fica muito bem explicado e explícito. Não precisamos deduzir ou imaginar muita coisa, mas ele nos faz questionar o estabelecido, o instituído, assim como nossos hábitos científicos, ecológicos, familiares e sociais. Não conseguimos deixar de perguntar, mais uma vez: quem somos nós? E talvez indaguemos, com maior correção: “quem mais somos nós?”, deixando espaço extra para outras possibilidades, algumas apontadas pelo filme.

domingo, 26 de janeiro de 2014

A raiz do preconceito

     Um livro1 me chamou a atenção para o que seria, segundo o autor, a base do preconceito. Ele cita Hillman, o qual afirma que a supremacia da cor branca, chamada por ele de "supremacia branca", tem origem no fanatismo étnico, que é difícil de mudar, pois a "superioridade" da brancura é arquetípica. Algo é arquetípico quando está ligado aos fundamentos psicológicos da espécie humana como um todo, da mesma forma como o estão as religiões e suas concepções, os mitos e os instintos humanos. Os arquétipos são a base, o princípio da psique humana. Hillman demonstrou, por meio de estudos etnográficos sobre a África, que não só os brancos, mas também os negros possuem uma tendência a considerar as cores branca e negra como superior (boa) e inferior (ruim), respectivamente. O crítico cultural Todorov, também citado, liga o racismo ao simbolismo universal: "pares como preto/branco, luz/trevas, dia/noite parecem existir e funcionar em todas as culturas, sendo o primeiro termo de cada par geralmente o preferido".
     Na minha prática clínica, assim como na vida pessoal, já observei que os sonhos que trazem pessoas, animais e objetos negros geralmente diziam respeito a conteúdos que eram obscuros e inconscientes. É fato, por exemplo, que sonhos cuja trama se passa à noite, normalmente são mais difíceis de entender e trabalhar, pois remetem a uma condição mais confusa, vaga e "escura" para o sonhador. Realmente, não há como escapar do sentido simbólico dessas cores. A escuridão é negra, e um ser humano imerso na noite escura se sente completamente desorientado e passível de tropeçar e se ferir. O branco está relacionado, em geral, à pureza, à paz, à claridade, à luz, etc. A literatura universal e as obras poéticas são ricas de alusões, associações e valores em relação às duas cores.
     Então, os autores citados se perguntam porque o racismo resiste obstinadamente aos esforços políticos para sua erradicação. Sua resposta é que existe, neste caso, uma projeção dos valores arquetípicos da cor sobre as respectivas pessoas. Os racistas seriam pessoas literalistas que confundem a realidade física com a simbologia da cor, aplicando a oposição das cores preta/branca para fins preconceituosos. A solução de Hillman para amenizar o racismo é desliteralizá-lo ou perceber as cores como símbolos não aplicáveis às pessoas.
     Erich Fromm2 afirmou que a linguagem simbólica expressa experiências íntimas, pensamentos e sentimentos como se fossem fatos do mundo exterior. "A linguagem simbólica é uma língua onde o mundo exterior é um símbolo do mundo interior, um símbolo de nossas almas e de nossas mentes." Por isso os poetas, dentre os maiores usuários da linguagem simbólica, usam metáforas, isto é, transformam uma árvore, um clima, um membro do corpo, ou qualquer outra coisa, em símbolos de conteúdos interiores. Os povos do passado tinham os mitos e os sonhos entre as mais significativas expressões do espírito humano: não entendê-los tocava as raias do analfabetismo. Entretanto, o analfabetismo simbólico hoje em dia é muito mais comum do que imaginamos. Logo, aqueles que percebem a vida e o mundo de forma literal, tendem a perceber a pessoa negra da mesma forma como o faz com a noite, a escuridão, o abismo, e tantos outros fenômenos associados à cor negra. Seguindo esse raciocínio, aqueles que exercitam a linguagem simbólica mais frequentemente, pelo menos de maneira geral, seriam menos propícios a atitudes preconceituosas ou literalistas, pois podem mais perfeitamente diferenciar a pessoa do símbolo, o homem da cor.
     O livro mencionado no início deste texto trata brevemente sobre essa questão. Penso que o primeiro passo para amenização do preconceito em geral, e do racismo em particular, seja, como ocorre atualmente no Brasil e em outros países, provocar um repúdio generalizado com a divulgação de casos verídicos e a punição correspondente e o tratamento do assunto em novelas, filmes e outras mídias. Mas o aspecto educativo, levando-se em conta o ponto de vista simbólico do racismo, vai mais fundo.
     O homem moderno desaprendeu a linguagem simbólica e, tal como as pessoas que sofrem transtornos psicóticos, percebe a realidade de forma por demais literal, o que prejudica a interpretação mais acertada dos fatos. Atualmente, a decadência dos valores interiores aponta para a doença coletiva do homem contemporâneo: a fragmentação, o individualismo, a corrosão do coração que poderia uni-lo ao outro. O homem estaria vivendo um momento psicótico que percebe os símbolos como coisas, e não as coisas como símbolos, vê o que está lá fora como outro e não como símbolo de si mesmo. O simbolismo é uma linguagem natural, e enquanto o homem não se voltar à sua natureza interna, permanecerá sem raízes e se sentirá desagregado, seja internamente, seja socialmente.
1 - YOUNG-EISENDRATH, Polly. DAWSON, Terence. (Org.) Compêndio da Cambridge sobre Jung. São Paulo: Madras, 2011, p. 186.
2 - FROMM, Erich. A linguagem esquecida. Rio de Janeiro: Zahar, 1966, p. 14.