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domingo, 5 de março de 2017

Sistemas políticos e coletivos em oposição ao indivíduo

     Segundo Jung, sistemas coletivos como o partido político e o Estado são destrutivos para as relações humanas. Ao mesmo tempo, podem ser facilmente destruídos, na medida em que o indivíduo é inconsciente e incapaz de apreender o crescimento e a fusão das massas. O maior exemplo são os estados totalitários, que minam as relações pessoais por meio do medo e da desconfiança, com o fito de fragmentar a massa e, assim, sufocar a alma humana. "Até mesmo a relação entre pais e filhos, que é a mais íntima e natural, é rompida pelo Estado. Todas as grandes organizações, que perseguem exclusivamente fins materialistas, são as precursoras da massificação." Nem é preciso lembrar que o modelo mais patente dessa afirmativa é a implantação do Comunismo, como ocorreu na história recente. Nesse sistema, o sujeito era separado dos pais, ainda criança, para servir ao Estado.
     Porém, é preocupante o fato de também o Capitalismo servir a fins materialistas e ter um grande papel na massificação humana, com consequências para a perda de valores e até da saúde dos indivíduos. Mas a Ciência é outra instituição que serve, por enquanto, ao isolamento de funções psíquicas muito importantes ao bem-estar do ser humano, tais como o sentimento e a imaginação, devido à ênfase no ponto de vista materialista. Não é o Capitalismo isolado que possui efeitos nocivos, mas seu vínculo à Ciência positivista, a qual tem grande responsabilidade sobre a tecnologia empregada na produção industrial, que ainda ocorre independente de noções éticas ou de valores em relação à sua aplicação.
     A única forma de escapar a essa situação seria o desenvolvimento da consciência individual, que tornaria os sujeitos imunes à sedução das organizações coletivas. Isso ocorreria devido à preservação da alma, da psique, cuja base é o relacionamento humano. Jung fez essa apreciação sob o efeito da vivência da 2ª Guerra Mundial, cujos resultados prejudiciais sobre toda a humanidade perduraria ainda por décadas. A Alemanha sofrera uma psicose de massa, cuja maioria dos cidadãos se recusava insistentemente a admitir seu papel nas ações diretas danosas a outros povos, mesmo anos após a derrota do Führer. Não havia consciência da responsabilidade coletiva como sentimento humano geral, pois apenas "executavam ordens" ou não haviam feito nada pessoalmente prejudicial em consonância aos demais.
     O fato de a psicologia haver surgido aponta para uma reação a uma dinâmica que já se encontrava incipiente no inconsciente coletivo humano. Em certo momento na história, a pessoa real tornou-se um problema, e esta, enquanto indivíduo, se opõe fortemente ao totalitarismo e à massificação.

 
O interesse na psicologia tem a inevitável consequência de fortalecer a consciência individual, o que, segundo a experiência, é o melhor instrumento contra a influência devastadora da psique massiva. Se este movimento vingar e assumir maiores proporções, controla-se a fechadura da maior ameaça à nossa civilização. [...] O homem massificado significa catástrofe massificada. (JUNG, 2002, p. 82)
     Todas essas reflexões, embora aparentemente remotas, são atuais. Basta pensarmos no papel do terrorismo muçulmano e, por que não, no de um fenômeno bem mais próximo: a revelação do uso intenso da corrupção no Brasil. Infelizmente, os partidos só conseguem mirar um só objetivo - o poder; os relacionamentos humanos são iniciados ou mantidos para se conseguir força para galgar ou se manter o partido no poder. Este não constitui meio para se conseguir benefícios ao povo, exceto enquanto acalentador objetivo potencial, quando ainda permanece apenas na intenção de voto. Esse estado corresponde à fase de namoro de um casal. Por não se conhecer as agruras da convivência diária, que inclui não só as qualidades, mas também os defeitos do outro, tudo vai às mil maravilhas. Mas quando se casa (o partido assume o poder propriamente dito), aí vêm os problemas. O relacionamento com o poder torna-se o problema principal, enquanto o amor ao povo, aos carentes, aos analfabetos, aos doentes, aos desnutridos, as boas intenções prévias, ficam esquecidas.
     A saída, como já aludido, é o desenvolvimento da consciência individual, que passa pelo autoconhecimento, pela noção da situação psicológica pessoal. É preciso que os cidadãos e os políticos olhem para dentro de si e se reconheçam, percebam como são. O problema maior não é ter muitos defeitos, e sim não percebê-los como parte de si, em seu interior. É não aceitá-los como são. Porque, se não o fazemos, aí seremos eternos escravos de nosso lado sombrio, que permanecerá invisível, nosso ponto cego. Então, como eleitores, o elegeremos nossa autoridade; e, como político, faremos o que a massa inconsciente, nossa origem, seduz fazer desde sempre: corromper e ser corrompido.


(Leia mais a respeito: "A verdadeira atitude científica", "Tipos psicológicos: teoria e vivência", "A fascinação pela tecnologia", "A verdadeira atitude científica", "Consciência ética e moral no Brasil", "A crise e o espírito do tempo no Brasil de hoje", "Porque não consigo mudar")

REFERÊNCIAS

JUNG, Carl Gustav. Cartas II. Petrópolis: Vozes, 2002, p. 50, 78, 82.

quarta-feira, 4 de maio de 2016

A sombra do Brasil: banir ou integrar?

     Consideremos a nação brasileira como um sujeito possuidor de uma psique. O governo, o poder executivo, seria o eu; as instituições que o apoiam, o legislativo e o judiciário, fariam parte de todo o complexo do eu, regulador dos processos conscientes dentro da personalidade nacional, e que, ainda assim, comporta também certas instâncias inconscientes. O povo brasileiro, com suas numerosas instituições, representaria o inconsciente coletivo. Os diversos partidos personificariam os vários complexos pessoais inconscientes, que podem ou não se tornar mais ou menos conhecidos e identificados ou integrados ao eu.
Uma transposição do esquema psíquico para a nação brasileira.
     Essas comparações podem parecer mecânicas e simplistas, talvez porque pensemos que as pessoas, animais e coisas materiais "lá fora", vistas e apalpadas, sejam muito diferentes dos elementos psíquicos, estes sim, dinâmicos e de aparência muito mais "orgânica". Talvez tenhamos essa impressão por não percebermos a teia invisível que conecta a tudo e a todos externa e internamente. Não nos damos conta do "efeito borboleta", de como a batida de asas de uma borboleta pode desencadear, em seus vínculos inicialmente sutis, estragos como a passagem de um tufão. Portanto, o que me acontece a partir de fora, neste momento, neste lugar, está profundamente conectado interiormente comigo, com a minha pessoa, minhas ações, meus pensamentos. O que faço reflete em meu país e vice-versa.
     Na medida em que um partido tradicional permanece no governo, uma atitude de longa data insiste em continuar. Nada muda. Os partidos e os rebeldes ao governo ficam no "inconsciente", fora do eu, e, por isso conservam-se infantis, primitivos e desvalorizados. Ao assumir o governo, podem expressar traços dessas características. Exemplos disso é o modo como o governo, apesar de haver revitalizado a condição dos mais pobres, tratou tudo isso: a corrupção, a pretensão de que se poderia esbanjar dinheiro em programas sociais sem um limite mais real - talvez por ser o governo - sem que houvesse consequências, acreditar que o Brasil não estava em crise, etc.
     Se alguma parte dos "poderes" do eu, devido à rigidez deste, também fica longo tempo reprimida, acaba por manter-se subdesenvolvida e ingênua. Na medida em que são violentamente reprimidos, acabam conspirando para tornarem-se novamente visíveis e considerados parte do todo. À medida que o tempo passa, o tradicional governo se desgasta, pois não pode oferecer nada novo, já que realiza o que sabe, mas que é, ainda assim, insuficiente para abranger e praticar justiça ao todo. Produzir algo diferente é adotar a perspectiva oposta, que é considerada inimiga ou diabólica. Aliás, o novo sempre é diabólico, já que sua implantação requer um rebuliço no que é percebido como "normal": tudo vira um caos até que a ordem relativa ao novo se estruture e acomode a todos. Ao longo da história, isso ocorreu com várias inovações que quebraram antigos costumes: o rock, a ciência sobre a religião, seitas modernas, uma nova moda, um costume recente, etc.
Nenhum partido por si só representa a nação inteira.
A versão completa abarca a luz e a escuridão.
     Ora, se a consciência conservadora se desgasta, os aspectos sombrios ganham energia para novos arroubos. Podem se manifestar de maneira cada vez mais adaptada, com o tempo, obtendo o apoio de todo o "inconsciente", já que o representa, enquanto elemento sombrio. Se esse partido consegue assumir o eu consciente, conseguirá alguma inovação, na medida em que essa "assunção do eu" não for tão somente uma mera identificação. Quando me identifico com minha sombra, não penso no quanto estou diferente, mas excito-me com as novas atitudes que tomo, sem pensar nos valores tradicionais que me ocupavam outrora. É como se fosse tomado por uma paixão. Porém, infelizmente, esse fogo acaba um dia, e aí vou pensar no quanto fiz besteira em nome de uma chama provisória. Ao identificar-me com esses aspectos sombrios, não penso nas minhas outras partes. Estas já não me integram mais, só o novo. Porém, mal me dou conta de que nenhum elemento psíquico me pertence, mas sim à totalidade, que está muito além desse miserável e pequenino eu. Penso que foi mais ou menos isso que ocorreu com o PT.
     Ao se identificar - "Eu sou o governo", "Eu sou o povo", "Eu sou as instituições" - tomou mais do que pertencia a si. Pensou-se maior do que sua verdadeira medida. Inflacionou-se. Outro sintoma dessa inflação é a pretensão de atuar como ditadura, uma espécie de grande rigidez da consciência, uma intensa cisão psíquica, o que configurou, por exemplo, na intenção de censurar ou limitar a imprensa. O louvor do poder pelo poder acabou por degenerar em corrupção, já que não ocorreu uma distribuição equilibrada de recursos à consciência, aos instintos e arquétipos, mas sua usurpação pelo complexo-PT com que o eu-governo se identificou. Essa luta pelo poder parece ocultar uma espécie de medo de ser novamente relegado ao esquecimento, de ser desvalorizado e humilhado. Entretanto, o que ocorre com um balão inflado, com o tempo? Naturalmente, ele murcha até adotar a exata dimensão do seu ser real. Como partido que nunca teve o aval da psíquica nação, ao assumir, adotou posturas infantis e ações primitivas, inadequadas, ocorrência idêntica à inflação no contexto de um indivíduo. Alguns petistas, em um momento de lucidez, ousaram afirmar que, como nunca governou, "quem nunca comeu melado, quando come, se lambuza". E este é o ponto exato: não saber como se comportar adequadamente na direção da nação. Outros, delirados com o partido, não levam em consideração os demais, adotando um procedimento unilateral, tomando a parte pelo todo.
     Assim, não penso que o PT ou qualquer outro partido deva ser banido ou destruído, pura e simplesmente. Fazer isso é torná-lo mais sombrio, é mandá-lo de novo ao "inconsciente", de onde um dia há de voltar, talvez mais rude do que antes. Querendo ou não, ele representa parcela significativa do povo brasileiro, seus costumes, suas atitudes. Odiá-lo é, em uma perspectiva mais profunda, odiar a própria sombra que ora se projeta sobre o partido. Agora é momento de reflexão, de "baixar a bola" e se julgar com isenção, com mais maturidade, seja pelo PT, seja por cada cidadão brasileiro. O reconhecimento da culpa trará mais maturidade para que, mais adiante, quem sabe possa elevar-se novamente a uma posição dirigente, com menos presunção e mais equilíbrio. O maior mal da política é não saber administrar o poder, seu principal instrumento. Este deve servir ao povo, à nação, à totalidade, não a uma porção.
     RESSALVA: a comparação que faço aqui é aproximativa e limitada. A análise dos grupos e instituições não se estende aos indivíduos que os compõem. A associação dos conceitos psicológicos com partidos não tem fim depreciativo, pois quaisquer dos primeiros representam sempre figuras essenciais e muito importantes à psique coletiva.

(Leia mais a respeito: "Extinção ou renovação de valores?",