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domingo, 3 de junho de 2018

Sonho com alguém, mas outro morre

     Sempre me intrigou o fato de o senso comum, ou a tradição popular, alegar que, ao se sonhar com uma pessoa, outra acaba morrendo. Estudo os sonhos há mais de 20 anos, mas até hoje não encontrei resposta satisfatória para esta e várias outras questões envolvendo sonhos. Mas uma boa conversa, há pouco mais de um ano, me deu uma pista dos caminhos que nossa psique traça para tecer o sentido do destino.


     Um amigo relatou que sonhara com a morte do seu tio paraplégico. Então comentou que quem viera falecer, na verdade, fora outra pessoa, no caso, sua ex-esposa, como costuma ocorrer quando se sonha com a morte de alguém. Normalmente, nesses casos em que não se sabe a conexão, ou não se tem ciência do significado do sonho, muito provavelmente este acaba sendo encontrado oculto no inconsciente do sonhador. Investiguei com ele sobre o seu tio. Disse que este procura ser independente das pessoas, fazer tudo por conta própria, apesar das sérias limitações de sua paraplegia. Por outro lado, sua ex-esposa revelava ser uma personalidade totalmente oposta à dele, uma vez que procurava se identificar com as suas limitações psicológicas, tornando-se totalmente dependente das outras pessoas. Era uma pessoa cheia de conflitos, que usava de chantagens emocionais para com o sonhador, e era deprimida, recorrendo a medicamentos psiquiátricos. Acreditava que ela suicidara com tais remédios.
     Interessante aqui é que geralmente não encontramos evidências claras do sentido dos sonhos porque esperamos encontrar o vínculo dos fatos ou ideias na aparência dos acontecimentos. A psicologia, no entanto, procedendo à investigação científica do mundo psíquico, descobriu que os sonhos são como estórias que narram o que acontece interiormente com os sujeitos, em seu inconsciente. E sua linguagem sempre se revela muito clara e coerente quando procedemos aos métodos de trabalho com sonhos e conseguimos a descoberta do sentido oculto. O mesmo ocorre no presente caso.


     A conexão parece ocorrer entre o que o sonhador conhecia acerca do seu tio, e desconhecia a respeito da ex-esposa. O nosso inconsciente aloja figuras que são comumente opostas à personalidade consciente. Se tenho certa personalidade característica, meu inconsciente provavelmente conterá qualidades opostas às que identifico como minhas. E isso inclui também atributos sexuais. Se sou muito másculo e bruto, haverá uma figura inconsciente em mim, em forma de mulher, que apresentará propriedades totalmente opostas, e estas poderão aparecer, contra minha vontade, em certas situações. Parece que ocorreu o mesmo com o inconsciente da ex-esposa do sonhador: havia nele uma figura masculina que poderia ser representada, para o ex-marido, pelo tio paraplégico. No sonho, este veio a falecer, expressando que sua ex-esposa, tal como é simbolizada pela figura do seu inconsciente, iria morrer. No caso, o sonho atuou como um exame de raio-X, mostrando o inconsciente da ex, seu lado oculto, não revelado, desconhecido das pessoas do seu convívio, e não o seu lado conhecido, cotidiano. E é exatamente isso o que os sonhos revelam - aquilo que se ignora, que se encontra encoberto.
     Em outra ocasião, uma senhora residente no japão alegou não entender o que um sonho dizia, embora soubesse que continha uma mensagem oculta. Uma semana antes do acidente de moto que ceifaria a vida do filho, ela sonhara que estava em um salão enfeitado com cortinas negras, onde havia uma mesa com forro negro, e um vaso de lírio sobre ela. Era a formatura escolar de seu filho. Como somos ignorantes hoje em dia com relação à linguagem simbólica! Esta é uma linguagem universal, encontrada nas canções, nas poesias, nos hinos, na Bíblia, nos mitos, nas mais diversas culturas, em nossos próprios sonhos. Porém, a ignoramos. O sonho avisou a mãe que em breve ocorreria a formatura do filho. Ele iria formar-se na "escola da vida" (esta é a metáfora coletiva mais próxima que achei para expressar o que o sonho parecia querer transmitir ao seu ego). Os símbolos do sonho expressavam esse alerta. Talvez tenham atuado como consolo, ainda que não tenha captado a mensagem conscientemente. É provável que seu inconsciente havia captado certos sinais, não percebidos conscientemente, de que estava em processo um encadeamento de eventos que resultaria na morte do filho. O mesmo teria ocorrido no sonho analisado antes. 
     Esses dois casos revelam o quanto ainda ignoramos certos processos simples e corriqueiros de nossa psique. A ciência avançou muito em certos campos, e até no aspecto material dos sonhos, mas insiste em não pesquisar e em ignorar certos fenômenos empíricos relacionados a eles. A linguagem simbólica é desprezada em favor da científica, por causa de sua inexatidão e inadequação aos métodos técnicos. Isso é óbvio, uma vez que ela se volta para a interioridade dos indivíduos, da qual ficamos cada vez mais distantes. É hora de crescer menos para fora e amadurecer por dentro.


sexta-feira, 21 de abril de 2017

Resignificando o jogo Baleia Azul


     A título de introdução, remeto o leitor ao texto "A importância do rito de passagem na adolescência". Nele há o entendimento de que a adolescência é um período de vida em que ocorre um processo de transformação da criança em adulto. Por esse motivo, a duração da adolescência é muito móvel, a faixa de idade varia conforme a cultura e depende da época histórica do país também. Esse processo, em suma, envolve a morte psíquica da criança e seu renascimento, semelhante ao simbolismo do batismo religioso, uma vez que este abarca o mesmo motivo. 
     É isso que os ritos de passagem encenam, dramatizam: a morte do ego infantil, com o qual há o fechamento dos tempos de garoto, o seu sepultamento, para que o homem nasça justamente desse "túmulo". E essa morte é simbolizada nas iniciações, envolvendo, por exemplo, a colocação do corpo do jovem em um caixão em local escuro por um período, e o seu velório. Por vezes, os próprios sonhos podem induzir uma morte simbólica: vide o sonho repetido do adolescente, no qual ele era sempre velado pela família, no texto citado acima. Tudo indica que o sonho insistia em que ele fizesse a passagem, o processo de transformação, que não envolvia a morte literal, mas simbólica. Essa é a chave para o entendimento da indução ao suicídio no jogo Baleia Azul. Existem muitas indicações de que os 50 desafios do jogo promovem a morte literal do ego e do indivíduo, por meio da identificação deste com a figura da tal baleia. Por isso ele é macabro e letal. Mas não precisava ser assim...
     Tratemos o jogo um símbolo, uma cena de sonho. No jogo existe a figura do "curador". O dicionário dá algumas definições de curador, mas as que são mais próximas do nosso objetivo são: 1. pessoa com incumbência legal de zelar pelos bens e interesses daqueles que não o possam fazer (função de curadoria); 2. Feiticeiro/rezador que, supostamente, cura as mordidas de serpentes venenosas, ou que as torna respeitadas por estes (AURÉLIO, 2009). Nesta segunda definição poderíamos acrescentar simplesmente aquelas pessoas que, supostamente, curam doenças das pessoas com sua arte espiritual. Lembro-me que uma dessas benzedeiras, Dona Aurora, minha vizinha, certa vez curou várias verrugas que eu tinha na ponta dos meus dedos de ambas as mãos quando era adolescente. Após a "benzição" com galhos de arruda, monitorei cuidadosamente o acontecimento. Ao final do primeiro dia parecia que elas estavam diminuindo de tamanho; qual não foi minha surpresa ao ver meus dedos totalmente limpos no segundo dia! Hipnose? Se for, mesmo hoje, com todos os cursos de especializações que existem, deve ser muito raro achar um que tenha essa competência... De todo modo, tudo indica que esse curador do jogo queira remediar algum inconveniente desses jogadores adolescentes. Não faria ele o papel de iniciador à morte física nesse macabro rito de passagem? No entanto, não poderia ele fazer simplesmente um papel mais psicológico, levando nossos jovens a "morrerem" psiquicamente, enquanto crianças? Esta é a proposta deste texto: resignificar o jogo e chamar a atenção para a grande necessidade de ritos que subjaz no comportamento dos nossos jovens.
     Assim, toda a série de mutilações e cortes no corpo possuem um sentido iniciático. De acordo com Stephenson (2009, p. 57), muitos ritos de passagem, nas culturas antigas, envolviam o derramamento de sangue de alguma maneira. E havia uma dupla razão para isso: os garotos precisavam se acostumar a ver sangue, pois ser homem implicava correr riscos, ser resistente e corajoso, mesmo quando ferido; derramar sangue lembrava o ciclo menstrual da mulher, ligado à conclusão do parto (nascimento). Hoje essas práticas parecem cruéis e arcaicas, mas cumpriam seu objetivo de fazer uma transição relativamente rápida da criança em adulto, e podemos aprender muito do sucesso de sua dinâmica.
     Para Brandão (1990, p. 337), para se penetrar no símbolo da mutilação
é bom relembrar que a ordem da "cidade" é par: o homem se põe de pé, apoiando-se em suas duas pernas, trabalha com seus dois braços, olha a realidade com seus dois olhos. Ao contrário da ordem humana ou diurna, que é par, a ordem oculta, noturna, transcendental é UM, é ímpar. O disforme e o mutilado têm em comum o fato de estarem à margem da sociedade humana ou diurna, uma vez que neles a paridade foi prejudicada. Numero deus impari gaudet, o número ímpar agrada ao deus, diz o provérbio, mas an odd number significa também em inglês um "tipo estranho, um tipo incomum", e a expressão francesa il a commis un impair significa que alguém "cometeu uma inconveniência", "fez asneira", transgredindo, por leve que seja, a ordem humana. O criminoso "comete uma terrível inconveniência", transgredindo gravemente a ordem social; o herói se "singulariza perigosamente". Ambos realçam o sagrado e só se distinguem pela orientação vetorial do herói: sagrado-esquerdo e sagrado-direito. O vidente, como Tirésias, é cego; o gênio da eloquência é gago... a mutilação tem pois dois lados, revestindo-se também da complexio oppositorum, possuindo, assim, valor iniciático e contra-iniciático.
     Dizer ou escrever "Eu sou uma baleia" é afirmar a identidade com esse animal. Estar em comunhão ou se identificar com algo ou alguém pode envolver comer algo relacionado a isso, como ocorre no rito cristão da comunhão. Assim, ser uma baleia indica ser devorado por ela. Jacobi (1991, p. 135) diz que ser comido ou devorado é um motivo arquetípico amplamente propagado em várias lendas, contos e mitos. O exemplo mais conhecido é o de Jonas engolido pela baleia. A baleia é parente do dragão, simboliza com frequência a água, o mar que devora o sol e o devolve de novo à vida. A bruxa, o lobo e o ogro devorador possuem sentido similar. No simbolismo da alquimia encontra-se o leão que come o sol e o cabrito que entra no ventre de sua irmã Beia. Ser engolido é descer aos infernos, reafundar no ventre da mãe, extinguir a consciência, matar o eu que se afoga no inconsciente, na goela voraz da morte. "A viagem para o Hades, a Nekyia, o engolimento pela besta do caos, embora sejam as penúrias do inferno e da morte, são, no entanto, a condição prévia para a salvação e o renascimento." E no jogo da Baleia Azul os desafios de subir em um telhado alto, sentar-se na borda de uma ponte, ir a uma estrada de ferro, assistir a filmes de terror têm estreita relação com preparar-se para ir ao encontro da morte, do monstro, do dragão (o trem), da terra, da água, todos símbolos femininos, do útero do qual todos surgiram.
     O jogo da Baleia Azul não passa de um equívoco que literaliza uma necessidade simbólica de morrer. Na verdade, ele se torna tão polêmico e perigoso porque hoje em dia não fazemos mais a leitura simbólica, não observamos mais a realidade e o humano como são. Estamos muito ocupados e desligados do presente e de nosso interior, nossos instintos, emoções e sentimentos. Quanto mais das pessoas que nos são próximas... Ele está aí para dizer que precisamos morrer, nos transformar, mudar. "O paradoxo curioso é que quando eu me aceito como eu sou, então eu mudo." - Carl Rogers.


AGRADECIMENTOS

A Hugo Guimarães pelo texto ENTRE O VENTRE E O TÚMULO – UM OLHAR ARQUETÍPICO SOBRE A BALEIA AZUL, de onde tirei o link para os 50 desafios do jogo Baleia Azul.

REFERÊNCIAS

BRANDÃO, Junito de Souza. Mitologia grega. 6. ed. Petrópolis: Vozes, 1990. v. 1.

Novo Dicionário Aurélio versão 6.0 - Dicionário Eletrônico - Conforme a Nova Ortografia [CD-ROM], Positivo Informática, 2009.

STEPHENSON, Bret. From boys to men: spiritual rites of passage in an indulgent age. Rochester: Park Street, 2004.

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Malévola - a amargura do feminino


     De forma geral, o filme trata da iniciação feminina frustrada da protagonista. Débutant, em francês, quer dizer iniciante, e corresponde à tradicional festa de comemoração de quinze anos de uma jovem. Em países europeus, essa festa, uma espécie de rito de iniciação, caracterizava o momento em que a adolescente era, pela primeira vez, apresentada como mulher à sociedade, e onde possíveis pretendentes também compareciam. Apesar do filme referir-se à idade de 16 anos, o conto original da Bela Adormecida indica a idade de 15 anos, que é a do Début.
     No entanto, o processo de tornar-se mulher, para Malévola, foi frustrado: seus sonhos, expressos na sua vitalidade e na exuberância do reino dos Moors, dão lugar a uma profunda depressão, que torna tudo escuro e pesado. Essa fase negra de Malévola corresponde aos cem anos de sono que ela impõe a Aurora, que personifica, para a fada má, o despertar de sua consciência feminina, mesmo que sem a participação de seu contraponto masculino, que antes era figurado por Stephan.
A iniciação feminina e o baile de debutante.
     Os chifres de Malévola possivelmente fazem referência ao aspecto masculino da fada, que não só é potencial, mas que chega a confrontar figuras masculinas exteriores, na forma do rei humano e de Stephan, que representam um lado masculino extremo, exacerbado, sem nenhum equilíbrio compensatório.
     Algo que me chamou muito a atenção foi o fato de o pai de Aurora mandar a filha para longe de si com a finalidade de protegê-la. Parece ser uma atitude típica de homens que, querendo proteger o aspecto feminino, associado à figura da esposa e da filha, acaba isolando-o e isentando-o de qualquer relacionamento. É o que se observa em homens que, principalmente nos séculos passados, mantiveram relacionamentos sexuais com prostitutas, deixando a esposa para interações mais “puras” ou “santificadas”. Nota-se que Stephan, além da crueldade de vender o coração de uma mulher, isolou-se da filha e da esposa, a quem não atenta nem na hora da morte. Ele parece se preocupar inteiramente com a disputa de poder com Malévola, o que denuncia um forte complexo materno negativo. O homem projeta a mãe supercontroladora em todas as mulheres e procura dominá-las ou isolá-las. A fada má constitui sua própria alma (representada também pela esposa e pela filha), a quem impõe a clausura de uma grande cerca de espinhos. Nesse aspecto, a leitura do conto do ponto de vista da psicologia masculina é totalmente válida.
Malévola se envolve de novo
com seu lado criança.
     Entretanto, o contato de Malévola com seu lado criança (Aurora), sepultado pela presunção e pela ambição do novo rei, acaba por descongelar seu coração endurecido. Se esta não pôde despertar seu lado feminino pelo amor a outro homem, devido à decepção, ela se redimirá tornando-se mãe. Aurora é como se fosse mesmo filha da fada e do rei, ainda que por adoção. Uma filha que herda a maldição da mãe, mas que prenuncia seu despertar. O filme parece retratar um fato muito comum hoje em dia: quantas mulheres não acabam se iniciando na vida adulta tornando-se primeiramente mães solteiras, devido à frustração de um amor, ou por não conseguir confiar em um, pela falta de um modelo masculino. Observe-se que nem Malévola, nem o rei Stephan, quando meninos, tinham pais vivos.
     O único relacionamento que a fada tem com o masculino é através do corvo Diaval. Esta interação não evolui para algo mais profundo, mas pelo menos o faz até o ponto de ele ganhar certa autonomia, quando insiste para que a fada prepare o príncipe para que beije Aurora e a desafia a transformá-lo em verme ou pombo, pois não mais se importa. Por outro lado, é típica a superficialidade das personalidades das fadas madrinhas, boazinhas, santinhas, mas totalmente inexperientes, sem nenhum dote para a lida diária do lar, ao contrário de Malévola, que praticamente cria Aurora. O mesmo desenvolvimento ocorre com Nina, personagem do filme "Cisne Negro", que precisa conscientizar seu lado sombrio para representar com brilhantismo a peça do mesmo nome. Isso denuncia um aspecto importante para o desenvolvimento da personalidade: ninguém se torna grande da noite para o dia, ou por simples magia. As maiores personalidades sofreram muito e foram forjadas no embate interno de qualidades e defeitos, de aspectos luminosos e tenebrosos. Parafraseando Jung, as grandes alturas só são atingidas a custa da mesma proporção de enraizamento em lugares mais profundos no solo.
     Malévola, inicialmente, se identifica com seu lado sombrio, pois rejeita a sua identidade de moça bela e boa, a qual foi vilmente desprezada por Stephan. Mas percebe a necessidade de relativizar também sua sombra, e assim passa a ter disponíveis os dois modos de ser: a boa e a má, para usar de acordo com as circunstâncias, sem se identificar inteiramente com uma ou com a outra.
As três fadas madrinhas e Aurora.
     O final do filme é trágico para Stephan. O embate com uma pessoa que alcança maior integridade e maturidade só pode finalizar com a vitória desta, ainda mais quando chega ao ponto de recuperar as próprias asas, antes presas do antigo captor. Quando a rigidez pessoal alcança um nível extremo, só a morte pode compensar esse tipo de existência, que, aliás, equivale em vários aspectos às qualidades daquela. Aurora une então os reinos humano e sobrenatural, consciente e inconsciente. E ainda aponta para um promissor relacionamento com o aspecto masculino, representado pelo príncipe Philip.