sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Atenção plena (mindfullness), o eu e o inconsciente

     Já há algum tempo passei a praticar o que se popularizou como mindfullness, ou atenção plena, em português. Essa espécie de meditação é milenar, mas só recentemente foi muito mais divulgada, apesar de ser conhecida em nosso meio, em certos círculos, desde o tempo de divulgação do budismo e da yoga no Ocidente. Sidarta Gautama, o Buda, a divulgou como maneira de se alcançar o Nirvana, a iluminação. Esta é a disposição em que se consegue o livramento dos opostos psíquicos, das qualidades antagônicas que leva o homem cair nos extremos, a nunca se equilibrar, a libertação do desejo. No estado de atenção plena o indivíduo consegue trilhar o "caminho do meio".
     Segundo Williams e Penman (2015), a atenção plena é tão eficaz quanto os antidepressivos no combate à depressão, sem o prejuízo dos efeitos colaterais destes. Também reduz em 50% a probabilidade da recaída das depressões mais severas. Por que essa meditação tem efeito tão poderoso sobre a psique?
     Como estudioso da psique a partir da psicologia junguiana, formei algumas hipóteses interessantes que conectam a psicologia oriental à ocidental. Entendo que aqueles que praticam a atenção plena (mindfullness) adquirem a capacidade de ficar atentos a tudo o que, potencialmente, faria parte do inconsciente pessoal. Logo, ao invés de sonhar com fatores reprimidos ou que não receberam atenção devida, como ocorre normalmente, o meditante considera atentamente os conteúdos que teria rejeitado ou desprezado. Isso teria o efeito de não alimentar o inconsciente pessoal. Na psicologia analítica aprende-se que o complexo é formado de uma "casca" pessoal, formada a partir das vivências individuais de temas arquetípicos, e de um núcleo impessoal, que constitui esse tema arquetípico já citado. De modo geral, pode-se afirmar, assim, que o inconsciente pessoal (Ics P), da mesma maneira que ocorre com seus constituintes (os complexos), forma uma "camada" pessoal, subjetiva, sobre o inconsciente coletivo (Ics C) ou impessoal. À medida que a psicoterapia avança e o Ics P é tratado, ele se torna energeticamente mínimo ou fraco, deixando "descoberto" o Ics C. Por isso os pacientes começam a sonhar com conteúdos arquetípicos, característicos do Ics C. Assim, o Oriente e sua prática de atenção plena tende a não formar um Ics P muito robusto, deixando praticamente "descoberto" o Ics C. Daí suas produções serem quase 100% expressões do Ics C.
     O que o Oriente percebe como "morte do ego", no processo de crescimento espiritual, a Psicologia Analítica pode entender como extinção do complexo do ego. Para uma discussão mais pormenorizada desse assunto, remeto o leitor ao texto "A origem e a natureza do Eu". Nele, proponho que a formação do complexo do ego serve à formação do foco de atenção consciente, outro aspecto do ego que advém diretamente do Si-mesmo. Na medida em que o complexo do ego serviu de "fôrma", de molde, para que a atenção consciente se focasse, ele se torna apenas relativamente necessário, pois acaba se constituindo um bloqueio à desidentificação com os conteúdos pessoais (individuação e atenção plena), que poderia levar à formação da função transcendente ou a um reforço do eixo ego–Si-mesmo. Talvez apenas uma delimitação mínima (complexo) fosse necessária para a continuidade da demarcação do foco de atenção egoica. Nesse ponto haveria ocorrido aquela espécie de morte do ego que o Oriente prega.
     Uma pista de que o ego possa se "destacar" de seu complexo, é o fenômeno de identificação com outro complexo, fenômeno bastante conhecido nos consultórios de psicologia. Quando se identifica com outro complexo ou até com um arquétipo, o ego parece exprimir uma outra personalidade por meio de comportamento inabitual e característico. Como isso se torna possível sem que o ego se tenha separado de seu complexo origem?
Conjunção de Kama (deus do amor hindu) e 
Rati (deusa dos prazeres eróticos).
     Um sinal característico de como o Oriente culturalmente trata seu Ics P milenarmente, muito antes do Ocidente, é o fato de considerar os temas sexuais tão sagrados quanto os demais, a ponto de serem retratadas divindades em pleno coito sexual. Sabiamente, aquele povo entende que a força dos instintos em geral, e do sexual em particular, é personificada pelos diversos deuses e demônios de seu panteão. Que o "mal" constitui mais uma aplicação "tortuosa" de forças humanas, animais e/ou espirituais, e uma identificação com estas, e não o "mal" em si mesmas.
     Por volta de 25 anos atrás eu fazia psicoterapia com análise de sonhos, praticava imaginação ativa e também mindfullness. Certo dia tive que ir à banca de revistas da rodoviária da cidade. Sentei-me num banco e passei à prática da atenção plena. Basicamente, esta consiste em prestar atenção a tudo o que ocorre interior e exteriormente. Subjetivamente, procura-se observar o fluxo de pensamentos, sentimentos, lembranças, etc., sem que nossa vontade interfira nesse tráfego de conteúdos psíquicos. Acontece que isso é muito difícil de se conseguir: observar sem interferir, focar a atenção sem usar da vontade para deter o fluxo. Geralmente foca-se o processo da respiração e, quando um pensamento, imagem, sensação ou sentimento perturba essa concentração, a primeira providência é lembrar-se de que se foi conduzido automaticamente até esse conteúdo, então se reconhece e se identifica esses elementos durante algum tempo, e volta-se à respiração. Exercita-se esse processo durante todo o tempo da meditação. Entretanto, essa prática não é restrita a uma certa posição, momento, postura ou lugar. Pode-se exercê-la em diferentes contextos: no trabalho, em viagem, na escola, etc., de olhos abertos ou fechados. De repente, observei, num clarão de insight, minha intenção de meditar, assim como o esforço que fazia para alcançar esse intento. Percebi que não era necessário esforço algum. Então ocorreu um estado alterado de consciência. Senti uma felicidade e uma exaltação libertadora. Passei a caminhar. Enquanto andava pela rua, percebia como se eu não estivesse caminhando, mas a rua passasse sob os meus pés, sem que eu andasse. Durante toda a semana que se seguiu, essa sensação de libertação perdurou. Lembro-me ainda hoje de estar observando alguém dar alguns avisos a um grupo e achar graça da seriedade e solenidade do momento. Não conseguia mesmo me conter de vontade de rir. Só depois de alguns dias a antiga condição de consciência voltou.
Baseada em Von Franz (1990, p. 91),
confeccionada por Charles A. Resende
     Penso que esse estado alterado de consciência ocorreu facilitado também pela psicoterapia, que naturalmente induz a uma condição de atenção à subjetividade e análise interior. Mas, de alguma forma, também foi facilitado pela prática da imaginação ativa. Como descrevo no texto do link, na imaginação ativa acontece um fluxo conjunto da consciência e do inconsciente. * Von Franz (1990, p. 103) afirma que, à medida em que as três primeiras funções psíquicas (a superior e as duas auxiliares) são assimiladas, durante o processo de individuação, forma-se uma tensão entre a consciência e o inconsciente. A quarta função (inferior) não pode ascender à consciência, pois se encontra intrinsecamente associada ao inconsciente. Por isso, a consciência se rebaixa e o inconsciente ascende, ambos até certo nível médio, criando uma região intermediária, a função transcendente. Transcendente porque o sujeito funciona além do modo comum de consciência. Ele está aberto ao inconsciente, sem se identificar com este. Nessa condição, não há identificação com o nível "superior" da consciência, nem com o "inferior", do inconsciente. O indivíduo, vive em imaginação ativa, um estado de consciência em estreito contato com o Si-mesmo, atento ao mundo exterior, interior e às sincronicidades que ocorrem devido a essa conexão psicofísica. A similaridade da imaginação ativa com a meditação da atenção plena é flagrante. Ambas consistem em criar um ponto médio onde a Cs se faz presente sem interferir nos conteúdos do Ics, embora acolhendo-os, levando-os em consideração.
     Penso ser esta a chave para se compreender a psicologia do budismo, da yoga e várias outras práticas orientais, assim como do sufismo, sem negar seus aspectos mais importantes, mas unindo-os num todo coerente, fazendo justiça tanto ao Ocidente quanto ao Oriente. A verdade, como ensinou Jung, consiste em conjugar diferentes pontos de vista para se obter uma visão mais completa possível do objeto, seja ele qual for. Assim, as perspectivas inclusivas, que explicam até mesmo as contradições mais resistentes, principalmente na ciência, formam modelos teóricos que tendem a prevalecer. Questionamentos e apontamentos são bem-vindos.

OBSERVAÇÃO: para maior conhecimento das 4 funções, expostas aqui, vide os textos referenciados a seguir.




REFERÊNCIAS


VON FRANZ, Marie Louise. HILLMAN, James. A tipologia de Jung. São Paulo: Cultrix, 1990.
WILLIAMS, Mark. PENMAN, Danny. Atenção plena - Mindfullness: como encontrar a paz em um mundo frenético (inclui CD de meditação). Rio de Janeiro: Sextante, 2015.