terça-feira, 14 de janeiro de 2014

O pensamento positivo e a autoajuda

     A crença no pensamento positivo só pode ser comparada à crença no poder mágico das palavras, na onipotência do verbo. Talvez a exaltação quase "mágica" do pensamento se deva às proezas tecnológicas do nosso tempo, que ocorrem justamente devido à articulação das ideias, ao raciocínio e ao acúmulo dos pensamentos científicos por meio dos livros e dos meios digitais.
     Lembro-me de ler "O poder do subconsciente", de Joseph Murphy, que explica como a repetição e crença em certo "pensamento positivo" pode se impor ao "subconsciente" e produzir condições e fatores que poderiam mudar a vida de alguém. Apesar disso estar ligado à magia do verbo, prefiro não criticar crença alguma, mas apenas constatar sua existência. Além disso, a verdade possui diversos níveis e pontos de vista. A postura mais apropriada em relação a qualquer coisa é a conjunção de diversas perspectivas, mesmo que contraditórias, pois essa reunião panorâmica de um assunto se aproxima mais de uma totalidade de percepções e, por conseguinte, da realidade, do que uma ideia isolada a respeito.
     Porém, a crença nesse poder mágico do pensamento e sua atitude pode produzir uma ocorrência psicológica que pode acarretar vários prejuízos. Crer que um pensamento positivo pode se impor sobre uma ideia oposta e "negativa" favorece uma postura de repressão. E praticar qualquer método afim a essa crença é repressão, psicologicamente. Entretanto, passa uma aparência totalmente travestida de boas intenções, como se a ideia negativa nada fosse, ou pudesse ter sua força totalmente reduzida simplesmente pela repetição da ideia oposta. Os livros de autoajuda que recorrem a esse expediente costumam também explicar a falta de fundamento do pensamento negativo, com o propósito de resignificá-lo. A programação neurolinguística recorre a esse processo. Não nego também que isso possa ser vantajoso em curto espaço de tempo, para se conseguir sucesso em certas tarefas e para certos tipos psicológicos. Afinal, não posso contradizer o que afirmei acima acerca da validade de diferentes pontos de vista. Mas farei uma proposta inovadora e alternativa a essa crença e prática.
     Certos clientes ficavam abismados quando relatavam o quanto haviam tentado se opor a determinado pensamento ou sentimento, o bom resultado temporário dessa postura, e a inevitável volta ao ponto inicial: a antiga repetição da afirmativa negativa martelando em sua cabeça contra a sua vontade. Então era proposta uma atitude totalmente oposta. "Você já tentou, ao invés de ficar insistindo em se opor a essa ideia, ir ao encontro dela? Quantas vezes já tentou ir contra esse pensamento "negativo" sem sucesso? Por que não fazer o oposto?" Isso os surpreendia ainda mais. "Afinal, o que essa ideia tão desagradável quer de você? O que ela quer dizer com isso? Tudo bem, você pode até não concordar com ela, mas o que ela tem a dizer?"
   Percebo os "pensamentos negativos" como crianças que ficam perturbando os adultos, fazendo traquinagens, "artes", até que estes deem atenção. Você já se voltou a essas opiniões negativas? Afinal, elas são como "pessoinhas", ou melhor, crianças vivendo em nosso interior. Em certos casos, quando ouvimos o que têm a dizer, podemos percebê-las como adultos de cabeça feita ou idosos que têm muito a nos ensinar. Se visualizarmos esses conteúdos "maus" como pessoas internas, perceberemos também que não gostamos delas. Devem ser invejosas ou maldosas, gente sem crédito... Mas o que elas nos invejam? Por que querem nosso mal? O que elas querem dizer?
     Há uma citação de Jung, no livro "Tipos psicológicos", que pode esclarecer nossa atitude a esse respeito:
Que eu faça um mendigo sentar-se à minha mesa, que eu perdoe aquele que me ofende e me esforce por amar - inclusive o meu inimigo - em nome de Cristo, tudo isto, naturalmente, não deixa de ser uma grande virtude. O que faço ao menor dos meus irmãos é ao próprio Cristo que faço. Mas, o que acontecerá, se descubro, porventura, que o menor, o mais miserável de todos, o mais pobre dos mendigos, o mais insolente dos meus caluniadores, o meu inimigo, reside dentro de mim, sou eu mesmo, e precisa da esmola da minha bondade, e que eu mesmo sou o inimigo que é necessário amar? (JUNG, 1991e, §520)
     Quem é esse dentro de mim que fica a me importunar? Que mendiga minha atenção? Que me calunia e se faz de meu inimigo? Estarei sendo ético com ele? Estarei sendo "cristão"? Se não dou atenção a essa parte de mim que exige minha atenção constante, como posso querer fazer o mesmo com meus parentes ou com o meu "próximo"? Prefiro terminar com essas questões. Elas podem transformar mais do que certas respostas.

(Leia mais a respeito: "Imaginação ativa ou terapia com o Sr. Inconsciente")