sábado, 18 de janeiro de 2014

Nossos conflitos interiores

     Ao contrário do que passa o convívio social, nós não somos apenas uma pessoa. Quem já não teve pensamentos, sentimentos, lembranças e emoções que não queria ter, que limitam nosso bem estar? Quem nunca se arrependeu de agir de certa maneira? Quem não tem ou nunca teve vícios e certos tipos de compulsões? Ora, se fôssemos de fato alguém, seríamos apenas quem somos, mas o fato é que somos várias pessoas, somos alguéns.
     E como temos outros convivendo com o que pensamos ser apenas eu, sempre passamos por conflitos. Queremos ser equilibrados, competentes, pontuais, responsáveis, esforçados, bonitos, fortes, inteligentes, carismáticos... Qualidades dignas de um herói. Queremos ser o herói da nossa vida e de onde vivemos. Mas, para isso, teríamos que ser apenas um. Aliás, o esforço heroico dos mitos e filmes consiste na aventura de se procurar vencer todos os obstáculos e ameaças a essa unidade, tais como o desequilíbrio, a incompetência, o atraso, a preguiça, a feiura, a burrice, etc. Porém, mal sabemos que a unidade que podemos alcançar consiste menos em não ser contraditório do que estar consciente da nossa multiplicidade interior. Quando admitimos que somos vários, damos o primeiro passo para essa mítica e heroica unidade, pois aí podemos perceber os outros em nós e confrontá-los. 
     No livro “Viver a vida não vivida”, Robert A. Johnson (2010, p. 201) afirma existirem dois tipos de opostos: os opostos contraditórios, que podem se cancelar mutuamente – direita/esquerda, embaixo/acima, etc., e os opostos contrários – claro/escuro, saúde/doença, etc. Os primeiros não podem se conciliar, pois a oposição aí é absoluta. Já os contrários comportam aspectos que, apesar de se oporem, se misturam em transição de um para o outro, pois fazem parte de um processo dinâmico, como o dia claro, o nublado, a tempestade e a noite, por exemplo. Johnson menciona a “velha ética” como um sistema de valores que insiste na oposição contraditória do bem e do mal, e não na sua “contrariedade”. Por isso, os valores considerados “maus” são reprimidos logo na origem, na infância, o que também gera o mal humor crônico, resultado do total culto à virtude.
De acordo com o pensamento em branco e preto (opostos contraditórios), precisamos escolher ou isto ou aquilo. Somos tentados a seguir esse tipo de pensamento quando somos confrontados com paradoxos. Mas o paradoxo é um poço artesiano de significado do qual precisamos muito em nosso mundo moderno. A contradição é estática, ao passo que o paradoxo abre espaço para a graça e o mistério. (JOHNSON, 2010, p. 202)
     Abordar o paradoxo, continua o autor, é viver em um nível de consciência mais ampla, aberta para a vida intensa e a liberdade. O sofrimento sempre ocorre quando separamos os opostos. Um exemplo típico é a separação diversão/trabalho. Se apenas queremos nos divertir, consideramo-nos irresponsáveis. Se só trabalhamos, a vida torna-se amarga. Ora, isso ocorre porque, ao separar as qualidades em nós, somos separados com elas, tornamo-nos os próprios opostos, pois identificamo-nos com um e negamos o outro. Entretanto, com o tempo, sem o outro sentimo-nos vazios, pois queremos apenas ser uma parte do todo. Esse “vazio” é justamente a ausência do oposto que reprimimos. E isso me fez lembrar de Lao Tsé em seu livro “Tao te ching”: “Modelai o barro para fazer um jarro. Recortai no espaço vazio das paredes portas e janelas a fim de que um quarto possa ser usado. Dessa forma o ser produz o útil mas é o não-ser que o torna eficaz.” O “não ser” é o que não somos, o que rejeitamos em nós, nossa sombra. É como se precisássemos de um fio, mas só quiséssemos tocar em uma ponta: nunca conseguiremos utilizar o fio todo para não nos aproximar da ponta oposta. Mas só o faremos com sucesso, eficazmente, após aceitarmos as duas pontas. Assim é a vida – nunca conseguiremos lidar com suas diferentes situações, de forma completa e eficaz, se aceitamos só uma parte de nossas ferramentas (os opostos).
     Portanto, o conflito surge da nossa atitude parcial, lateral e unívoca. Queremos que uma parte de nós viva e a outra morra, mas esquecemos que nesta também corre sangue e impulsos nervosos, que também é corpo e alma.


(Leia mais a respeito: "Dorian Gray e a sombra na atualidade")