domingo, 25 de maio de 2014

Do instinto ao querer; do desejo à vontade

     A energia psíquica se manifesta através da vitalidade e da mobilidade que os conteúdos psíquicos possuem, o que podemos perceber através da introspecção. Um pensamento que persiste, uma música que ouvimos "na cabeça" o dia todo, um sentimento que ocorre por alguém, uma atração, a curiosidade, e muitos outros, são expressões do dinamismo da energia psíquica passando por essas manifestações. Assim como deduzimos que há uma energia elétrica “percorrendo” um aparelho que se movimenta, e que está ligado a uma tomada, o mesmo ocorre na psique. Ora, a maioria dos fenômenos psíquicos são inconscientes, e muitos deles advém dos instintos.
A arte ajudou o homem a
abstrair do concreto
     No homem primitivo a energia psíquica se expressava principalmente através dos instintos e ele não tinha energia disponível para fazer o que queria, mas apenas o que desejava. Por isso, não tinha nenhum domínio sobre si mesmo. Fazia o que seus instintos demandavam. Entretanto, na medida em que começou a dispor de tempo livre, principalmente após a descoberta do fogo e do seu transporte para as cavernas, passou a se expressar de forma artística à noite e na escuridão de sua habitação. Era nesse tempo ocioso, quando não podia se dedicar à caça, é que iniciou a arte. Essa expressão ajudou-o a se conscientizar de conteúdos psíquicos antes encobertos: seu temor e terror perante forças desconhecidas, sejam animais ou meteorológicas. Começou também a usar da magia, pois havia correspondência entre o que expressava nas paredes ou em outros materiais (madeira, pedra, barro, etc.) e os animais e objetos naturais que encontrava. Passou a se relacionar com essas correspondências como uma forma de preparação para a ação efetiva. Se iria caçar, ilustrava a caça ou fazia um boneco do animal e o "matava", etc. E isso realmente mobilizava sua energia instintiva para a ação que desejava. Ele tinha medo do javali, mas enfrentá-lo simbolicamente ajudava-o a ousar um pouco mais. 
     Gerações e gerações se passaram com a repetição desses rituais até que o homem desenvolvesse a abstração a um nível de poder se planejar antes, apenas mentalmente, para executar o que queria. A energia psíquica instintiva foi, gradativamente, através desses rituais mágicos, tornada disponível para a vontade, para o eu, aquele que antes precisava de ritualizar. Se hoje em dia o homem pode fazer não apenas o que deseja, mas também o que deve e o que quer, é porque conseguiu maior domínio de seus instintos. Conseguiu drenar energia dos instintos conscientizando as fantasias inconscientes a um alto nível de emprego.
     Quando se fala sobre as fantasias das quais se sente muita vergonha, ou medo, ou qualquer outro sentimento perturbador, como ocorre na arteterapia ou na psicoterapia em geral, ocorre sua objetivação, pois são lançadas para fora. Então pode-se percebê-las exteriormente, podendo-se observar os detalhes, analisá-las melhor e sob os mais variados aspectos: localização na folha, as cores, os traços, etc. Fazendo isso, elas se tornam conscientes, e trazem para a consciência o seu sentido inconsciente. Desse modo, consegue-se "tomar" a energia contida nessas fantasias. O eu passa a contextualizar seu sentido dentro de seu próprio repertório, como algo seu. Tanto isso ocorre, que agora o eu pode fazer o que antes não conseguia: se comportar de nova maneira frente a uma pessoa difícil, dominar-se frente a um estímulo que antes incitava desejos indomáveis, encarar com nova atitude os mesmos desafios, etc. Isso tudo indica um nível mais alto de emprego da energia psíquica do que ocorria anteriormente.
     Por isso pode-se afirmar que o homem que não consegue transformar seus instintos ou desejos em vontade, no sentido de alcançar um domínio crescente sobre si mesmo, deixa de humanizar-se, ou até de igualar-se aos animais no equilíbrio que estes possuem para com os próprios instintos. Torna-se menos que um animal, pois até estes sabem tomar atitudes apropriadas às diversas situações, sem ter que pensar a respeito. A violência desenfreada do homem é tudo, menos humana: é “subanimal”.